Marcha em treadmill com inclinação negativa - o que a caracteriza e quais as vantagens em pacientes com DPOC?

A marcha em treadmill com inclinação negativa é apontada como um exemplo de exercício que envolve a contração excêntrica dos músculos dos membros inferiores, nomeadamente do quadricípite, de forma a exercer uma força de travagem, permitindo manter ou diminuir o ritmo da marcha (Erfani, Moezy, Mazaherinezhad, & Mousavi, 2015; Roig, Shadgan, & Reid, 2008). Tendo em conta as propriedades fisiológicas do exercício excêntrico, este parece necessitar de um baixo custo de energia, retirando uma carga de trabalho adicional ao sistema cardio-respiratório (Erfani, Moezy, Mazaherinezhad, & Mousavi, 2015; GOLD , 2017; Privarnik & Sherman, 1990; Roig, Shadgan, & Reid, 2008). Desta forma, apesar do recurso regular à marcha em treadmill, num plano nivelado ou com inclinação positiva para o treino de endurance, a inclinação negativa parece ser a mais adequada e segura para indivíduos com DPOC. 

Marcha em treadmill com inclinação negativa - o que a caracteriza e quais as vantagens em pacientes com DPOC?

A literatura aponta para um aumento do grau de flexão do joelho quando se realiza marcha com inclinação negativa, na qual Wall (1981) relatou que basta um gradiente de -2% na marcha para ocorrer alterações na frequência e comprimento da passada, acompanhadas de um aumento da flexão do joelho (Kuster, Sakurai, & Wood, 1995; Wall, 1981). De facto, esta alteração na amplitude articular do joelho pode ser justificada pela necessidade de desacelerar o corpo ao longo da marcha com inclinação negativa, permitindo uma descida controlada do corpo durante a fase de apoio do ciclo da marcha (Kuster, Sakurai, & Wood, 1995; Lay, Hass, & Gregor, 2006; McIntosh, Beatty, Dwan, & Vickers, 2006).

Neste sentido, para controlar o aumento da flexão do joelho nas inclinações negativas é necessário um maior trabalho do reto femoral, visto que o mesmo durante a fase de apoio da marcha está envolvido no controlo excêntrico da flexão do joelho (Camillo, et al., 2015; Completo & Fonseca, 2011). Assim, dois estudos realizados em adultos jovens saudáveis, por Franz & Kram, (2012) e Lay et al., (2007), demonstraram uma maior atividade do músculo extensor do joelho (nomeadamente, o reto femoral) com o aumento da inclinação negativa. Desta forma, segundo a literatura, ao caminhar com inclinação negativa, os indivíduos aumentam o trabalho excêntrico realizado pelo membro inferior que se encontra anteriormente para resistir à ação da gravidade e diminuem o trabalho concêntrico realizado pelo membro inferior que se encontra posteriormente. Assim, os músculos extensores do joelho do membro inferior que se encontra anteriormente e do membro inferior que se encontra posteriormente, realizam maioritariamente trabalho excêntrico para diminuir o deslocamento do corpo e por consequente, desacelerar o ritmo da marcha (Franz & Kram, 2013; Franz, Lyddon & Kram, 2012).

Desta forma, segundo a literatura, a marcha em treadmill com inclinação negativa permite um aumento da atividade muscular do reto femoral. Assim, visto que existe maior trabalho muscular, poderia ser expectável que existisse maior sobrecarga cardio-respiratória, de forma a dar resposta à maior necessidade de consumo de oxigénio pelos músculos. No entanto, a literatura relata que a marcha com inclinação negativa apresenta sobretudo contrações excêntricas, que apresentam uma maior contribuição de componentes elásticos no complexo músculo-tendão, aumentando assim o potencial de produção de força com gastos reduzidos de energia. Desta forma, os músculos apresentam uma grande capacidade de absorver energia mecânica durante contrações excêntricas e uma grande proporção dessa energia armazenada é reutilizada para reduzir os requisitos de força ativa na contração concêntrica subsequente (Erfani, Moezy, Mazaherinezhad, & Mousavi, 2015; Roig, Shadgan, & Reid, 2008; Rooyackers, Berkeljon, & Folgering, 2003).

Assim, é de salientar a marcha em treadmill com inclinação negativa em pacientes com DPOC, visto que é verificada uma menor sobrecarga cardio-respiratória, com um aumento de atividade muscular do reto femoral. Deste modo, um maior trabalho muscular, durante o exercício excêntrico, pode ser crucial para a melhoria da capacidade para o exercício dos indivíduos com DPOC sem que represente uma maior sobrecarga cardio-respiratória e custo metabólico (Roig, Shadgan, & Reid, 2008). Desta forma, tendo em conta a possibilidade que o treino com inclinação negativa promove um aumento de atividade muscular sem que represente uma maior sobrecarga cardio-respiratória, este pode ser o mais apropriado para o treino de endurance em indivíduos com DPOC.

Partilhe esta notícia