Fisioterapia e Bronquiolite | por Verónica Abreu (Bwizer Magazine – 2ª ed.)

Este artigo fez parte da 2ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

A Fisioterapia proporciona serviços a indivíduos e populações a fim de de­senvolver, manter ou restabelecer o máximo movimento e função ao longo do ciclo de vida. O fisioterapeuta identifica e maximiza a qualidade de vida e o potencial de movimento dentro da esfera da promoção, prevenção, trata­mento/intervenção, habilitação e reabilitação, abrangendo o bem-estar físico, psicológico, emocional e social. O seu papel inclui avaliação, diagnóstico, prognóstico, aconselhamento, educação e intervenção.

O âmbito da fisioterapia é dinâmico e sensível às necessidades de saúde do cliente e da sociedade. Com o desenvolvimento do conhecimento e avanços tecnológicos, é necessária uma revisão periódica para garantir que a prática reflita a base de evidências mais recente e continue a ser coerente com as necessidades atuais de saúde.

A bronquiolite é a doença respiratória do trato inferior mais comum nos pri­meiros dois anos de vida. Trata-se de uma infeção viral, na maior parte das vezes causada pelo Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e que é o responsável pela inflamação das vias aéreas (50-75% dos casos). Outros agentes pato­génicos incluem o adenovírus, rinovírus, o metapneumovírus humano, vírus influenza e para-influenza.

Os primeiros sinais e sintomas da bronquiolite são os de uma infeção do trato respiratório superior. Em cerca de 30% das crianças infetadas (menores de 2 anos) a infeção estende-se às vias aéreas inferiores. Habitualmen­te verifica-se tosse, taquipneia e aumento do esforço respiratório, podendo variar entre um grau de severidade moderado a falha respiratória aguda(8). Também se pode verificar uma produção aumentada de secreções. Em crianças muito novas, sobretudo nos prematuros, a apneia pode ser o único sinal presente.

 Fisioterapia e Bronquiolite | por Verónica Abreu (Bwizer Magazine – 2ª ed.)

Os parâmetros clínicos mais relevantes para a determinação da severidade da doença são alterações da frequência respiratória, esforço ventilatório e hipoxia.

O curso da bronquiolite segue um padrão característico. O pico dos sintomas situa-se ao 3º a 4ºdias da doença, resolvendo-se a maioria das infeções com um tratamento sintomático ao longo de 1 a 2 semanas.

Vários estudos têm explorado a mais-valia da Fisioterapia Respiratória (FR) de forma adicional à intervenção farmacológica nesta popula­ção, nomeadamente na redução de retrações, da frequência respiratória, melhor resultado na auscultação (menos sibilân­cias) e condições gerais. Várias intervenções, no contexto da FR, têm sido implementadas, conjugando técnicas mais de origem anglo-saxónica tais como a percussão, a drenagem pos­tural e a vibração, ou mais de origem francófona, tais como ex­pirações lentas e prolongadas (ELPr), acelerações do fluxo ex­piratório (AFE), desobstrução rinofaríngea retrograda (DRR).

Numa revisão bibliográfica, foram encontrados resultados ne­gativos da fisioterapia respiratória quando a intervenção se ba­seava na aplicação da vibração com percussão ou com técnicas expiratórias forçadas em crianças com bronquiolite. Algumas publicações e linhas orientadoras publicadas posteriormente a esta revisão, e que se baseiam quase exclusivamente nas suas conclusões, põem em causa assim os benefícios da FR. No entanto, a FR nesta população não se reduz a essas 3 técnicas, nem se aplica de forma indiferenciada independentemente da severidade da doença, críticas substanciais que se podem fazer a essa revisão.

De facto, estudos randomizados e controlados recentes em crianças hospitalizadas, assim como uma revisão sistemática concluíram que as técnicas francófonas melhoravam significa­tivamente o estado clinico de crianças com bronquiolite. Adicio­nalmente, na recente perspetiva de Lin and Madikians (2015) defende-se a opinião de que os médicos devem tomar decisões individualizadas sobre a necessidade de FR na bronquiolite, apesar de ir contra as recomendações da American Academy of Pediatrics que se fundamentam unicamente na referida re­visão de Roqué i Figuls et al. (2012). Estes autores ressalvam ainda o fato da natureza das recomendações serem um fio con­dutor partilhado e baseado na evidência e não poderem dizer o que se deve fazer em todos os pacientes.

Deste aparente conflito de conclusões e consequente divergên­cia de opiniões na literatura, o papel da fisioterapia na bron­quiolite precisa de ser cientificamente comprovado uma vez que na prática clinica do fisioterapeuta os resultados são visíveis. Na realidade acredito que uma parte destes conflitos surjam da utilização de diferentes técnicas que nem sempre poderão ser as mais indicadas, nomenclaturas diferentes para técnicas similares, não análise e exploração dos resultados consoante as diferentes características das amostras (ex. graus de seve­ridade da bronquiolite), utilização de instrumentos de medida diferentes, amostras quase exclusivamente em internamento hospitalar quando na prática clinica a maior percentagem é tratada em ambulatório ou domicilio,…

Apesar do testemunho dos diferentes profissionais de saúde e dos encarregados das crianças acerca dos benefícios associados à fisioterapia nos pa­cientes com bronquiolite, urge de uma vez por todas esclarecer e definir o impacto da fisioterapia em estudos com metodolo­gias robustas de maneira a, de uma forma comprovada e clara, caracterizar os sujeitos e as bronquiolites que beneficiam com as nossas possíveis intervenções. Entretanto continuemos, de uma forma individual ou integrados em equipas de reabilitação, a registar testemunhos e a levantar questões com o objetivo claro da promoção da saúde através do conhecimento e com­petências únicas dos fisioterapeutas.

 

Este artigo fez parte da 2ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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