À conversa com Dr. João Pedro Araújo (Bwizer Magazine)

Esta entrevista fez parte do número 6 da Bwizer Magazine – pode vê-lo na íntegra aqui.

 

Como surgiu a medicina na sua vida? E a ligação ao desporto?

Surgem ambas de forma muito natural e diria quase que de forma inata. Nas pri­meiras memórias que tenho recordo-me da admiração, fascínio e curiosidade que tinha quando acompanhava algum fami­liar a uma consulta médica ou à realiza­ção de algum tipo de tratamento médico, e de recriar o episódio assim que chegava a casa. O desporto (nomeadamente o fu­tebol) está presente na minha vida desde sempre e em todas as suas fases. Desde o futebol de rua com os vizinhos, aos jo­gos recreativos com os amigos até à par­ticipação nos jogos universitários e mais tarde em ligas médicas ou empresariais. Sem dúvida que o deporto e a medicina são 2 grandes amores da minha vida.

 

Fale-nos um pouco do seu percurso profissional, destacando alguns dos momentos mais marcantes.

Há imensos momentos que nos marcam, momentos de dicotomias em que a toma­da de decisão de forma pouco clara se demonstra transparente com o passar dos anos, mas que no momento nos ator­menta com tanta dúvida e outros momen­tos de sorte, pura sorte… porque também ela é muito importante. Qualquer que seja o momento ou a decisão, e para além da sorte, o mais relevante na tomada de de­cisão é mantermo-nos fiéis aos nossos princípios e aos nossos objetivos/sonhos. Fazê-lo de forma coerente, mas não ob­sessiva e acima de tudo… desfrutar do percurso, aproveitar a “viagem”.

Sendo assim prefiro escolher o momento mais marcante da minha carreira profis­sional que foi um telefonema que recebi à saída do Hospital de Santo António, no Porto após, um dia de trabalho. Era o di­retor desportivo do SC Braga e pergunta­va-me se estaria preparado para assumir a direção clínica do clube. Foi totalmente inesperado, até porque no dia anterior tinha já sido anunciado um novo diretor clínico, mas ainda que não estivesse pre­parado para a pergunta a resposta foi di­reta e natural: “sim, estou preparado”. Se a resposta foi curta e objetiva, as dúvidas preenchiam-me o pensamento pois tal decisão implicaria a suspensão do meu internato médico -o que era visto como uma loucura para a maioria das pessoas que me eram próximas- mas a persegui­ção do sonho foi muito mais forte, e no dia seguinte estava a assinar contrato!

 

Está responsável por chefiar o de­partamento clínico de um dos maio­res clubes de futebol, em Portugal? Como tudo aconteceu e quais os de­safios de trabalhar ao mais alto nível?

Para além do futebol, o Sporting é obje­tivamente o clube mais eclético de Por­tugal, e dessa forma o desafio é enorme pela grandeza e pela exigência. O convi­te foi endereçado diretamente pelo atual Presidente, o Dr. Frederico Varandas. Ora, sendo ele uma referência na medi­cina desportiva em Portugal, acrescenta uma grande responsabilidade para mim. A minha resposta ao seu convite foi ime­diata e altamente sustentada pela crença que tenho no atual projeto com o qual me identifico na totalidade.

O maior desafio de trabalhar ao mais alto nível é exatamente esse! Conseguir que a minha equipa dê o seu máximo no dia a dia focando-se sempre no essencial e controlável e sabendo tornar irrelevante o que não podemos controlar. Esse é o grande desafio para estes atletas e con­sequentemente, para todos os profissio­nais que os rodeiam.

O planeamento, a objetividade das ações e a clareza da comunicação são, para mim, os fatores chave nestas grandes organizações. Quanto à dimensão me­diática, essa deve ser sempre passada para segundo plano, pois torná-la o foco é, na minha perspetiva, contraproducen­te, não só pelo acréscimo de pressão que lhe está inerente, mas também porque a vantagem é minor e efémera.

 

O que mais o motiva no trabalho no desporto de alta competição?

A minha motivação é intrínseca e tem re­lação com a minha exigência individual e com os objetivos do projeto. Por outras palavras; na alta competição o momento de reconforto é quando o atleta/equipa atinge os objetivos e sentimos que con­tribuímos para isso; numa consulta hos­pitalar o reconforto é quando o paciente nos comunica que já não tem dor e que já regressou ao seu objetivo funcional. Emocionalmente, para mim, ambos são igualmente motivadores.

 

Na sua opinião qual o estado da me­dicina desportiva, em Portugal? E como compara com o resto do mun­do? Para onde caminhará?

Como fui emigrante durante 6 anos pos­so afirmar, penso que com baixa margem de erro, que a medicina desportiva em Portugal é de referência mundial, sendo que a qualidade dos fisioterapeutas foi o fator que mais contribuiu para tal. Não tenho dúvidas em afirmar que temos os melhores fisioterapeutas especializados em medicina desportiva do mundo, tan­to a nível técnico, como científico. Como considero que o exercício físico é a mais útil e poderosa de todas as ferramentas, não tenho dúvidas de que o complemento do curso de fisioterapia com cursos da área de “strenght and conditioning” trouxe uma vantagem major para esta comuni­dade, que não poupa esforços para rea­lizarem estes upgrades que os colocam na vanguarda da reabilitação desportiva mundial.

O meu percurso em muito se deve aos fisioterapeutas que fui encontrando nes­te longo caminho. Sem eles não teria chegado aqui. São vitais na dinâmica de trabalho das equipas médicas a que per­tenço e, para mim, são eles o “segredo” do seu sucesso.

 

Na competição ao mais alto nível os resultados são fundamentais: como é possível equilibrar a “pessoa” vs. “atleta”?

Na minha opinião, cada indivíduo antes de ser atleta é uma pessoa, e como qual­quer pessoa (repetindo o que disse em cima) o fundamental é traçar objetivos e saber desfrutar da viagem. Tudo isto começa com uma consciencialização de que ela tem altos e baixos, momentos de tristeza e outros de glória, mas tudo faz parte do caminho. Faz parte o luto faz parte o jubilo, e aprender a lidar com ambos é essencial. Estando conscientes disto os momentos menos bons são ultra­passados com maior facilidade e os mo­mentos bons são saboreados com outra sabedoria.

Dito isto, convém deixar claro que acre­dito no papel do psicólogo especializado na área desportiva, que deveria existir em todas as entidades desportivas e que tem um contributo crucial na preparação dos nossos jovens atletas. Sem dúvida que saberá dar uma reposta bem mais preci­sa e fundamentada que a minha.

À conversa com Dr. João Pedro Araújo (Bwizer Magazine)

 Quais os elementos fundamentais para que haja um trabalho sinérgico entre equipa técnica e equipa médi­ca?

Para mim existem 3 pilares:

1º pilar é a Compreensão: compreender que o background é diferente, que as vivências e as crenças também o são, e que naturalmente a divergência de opi­nião será algo natural e que deverá ser respeitada.

Posto isto, o 2º pilar é o Respeito: res­peito pela individualidade, pela opinião, pelas crenças…

E, por último, para sustentar tudo isto o 3º pilar que é a Comunicação: objetiva, clara e fidedigna e o mais imune possível a ruídos acessórios (como fazer depen­der a mensagem do resultado do fim de semana, valorizar “o diz que disse” ou outros tipos de ruídos como os de cariz egocêntrico).

 

Um diretor clínico responde a quem? O treinador principal é o responsável máximo ou o diretor clínico deve ter total autonomia?

Um diretor clínico deve envolver-se numa dinâmica de equipa em que os objetivos são comuns e em que o caminho é conhecido e partilhado por todos. As decisões são partilhadas entre a Direção, a Equipa Médica, a Equipa Técnica e o Atleta. Para mim, as hierarquizações tradicionais não fazem sentido e revejo-me neste dinamismo intersectorial, sempre em busca de decisões partilhadas de forma consciente e sustentada.

Por isso considero a comunicação como um pilar para o bom funcionamento das instituições e uma obrigatoriedade para se atingir a excelência.

 

Como vê o papel dos diferentes ele­mentos de uma equipa médica, sejam os fisioterapeutas, nutricionistas, en­fermeiros, ou outros? Como deve ser o relacionamento com o diretor clíni­co? É um trabalho muito hierarquiza­do, ou é mais colaborativo?

Da mesma forma que respondi à ques­tão anterior. Se todos se identificarem com o projeto e comungarem dos mes­mos valores pessoais e de trabalho em equipa, tudo flui com naturalidade. As nossas decisões são sempre partilhas e fruto de discussões abertas, construtivas e francas. Nas equipas a que pertenço há um gosto natural pelo trabalho de equipa não havendo lugar ao individualismo, não querendo isto dizer que a individualidade de cada um não seja respeitada. O resul­tado é fruto de um trabalho partilhado e todos os elementos acreditam que esse fundamento é essencial para o nosso su­cesso.

 

Hoje, as equipas médicas têm um papel marcante nas equipas de eli­te, tendo um protagonismo que não tinham no passado. A que se deve isso, na sua opinião? E como devem os profissionais de saúde gerir esta maior exigência?

Penso que tudo tem relação com a ex­pansão das áreas de conhecimento. À medida que as diversas áreas das ciên­cias medicas e do desporto crescem co­meçam de uma forma natural a quebrar fronteiras, cruzam-se e acabam por se inter-relacionar. Por exemplo: estando de uma forma simplista os departamentos médicos responsáveis pela saúde dos atletas e sabendo que a grande maioria das lesões advêm de erros metodológi­cos de treino, a comunidade das ciên­cias médicas foi começando a explorar os métodos de treino que funcionariam como fatores de risco para ocorrência de lesões, de forma a poder reduzir a sua incidência. A própria evolução dos tratamentos de reabilitação com muito maior ênfase no exercício físico (que há 20 anos atrás era da exclusiva responsa­bilidade dos treinadores) em detrimento da terapia por agentes físicos ou mesmo da terapia manual, leva a que haja um cruzamento de conhecimentos que, ao funcionar de forma simbiótica pode trazer resultados muito mais consistentes.

A gestão deste novo paradigma é mais uma vez assente em princípios básicos como: respeito pelas diversas opiniões e uma comunicação criteriosa, objetiva e desprovida de ruídos. Os profissionais devem ser sempre “open-minded” e hu­mildes com os seus conhecimentos. As soluções devem ser encontradas através da partilha e da discussão de ideias.

De igual forma este acréscimo de respon­sabilidade não deve ser ignorado e deve estimular todos os profissionais numa busca constante pelo conhecimento. Es­tar atualizado, apesar de ser um desafio, deverá ser uma obrigação.

 

Este protagonismo vem acompanha­do de maior risco, no sentido em que vai sendo comum algumas falhas desportivas serem atribuídas aos de­ partamentos médicos. Como vê este fenómeno?

Vejo de forma muito natural. Como em todas as áreas da sociedade, à medida que se aumenta o protagonismo, aumen­ta a responsabilidade. Nesta situação particular o problema surge quando os departamentos médicos não entram no processo de decisão, e aí podem de fac­to, ser injustiçados ao serem responsabi­lizados por processos que não controlam. Por isso, é importante que o tentem fazer desde o primeiro momento, mantendo um diálogo aberto, simples e objetivo.

 

Um outro projeto pelo qual é conhe­cido é a “Football Medicine”. Em que consiste e o que procuram alcançar?

De uma forma muito resumida, esse pro­jeto foi idealizado com os fisioterapeutas Ruben Ferreira e Paulo Barreira, e tinha como objetivo a partilha de conhecimento na área da medicina do futebol, tentando aproximar a nível internacional os profis­sionais que se dedicam ou tem interesse nessa área. Com este intuito foi cons­truído uma página de internet em língua inglesa, que contempla noticias, artigos, diagramas e podcasts. Recentemente ini­ciamos uma rubrica denominada “ABC of football medicine” que tem como objetivo educar e uniformizar a linguagem entre todos os intervenientes numa equipa de futebol (atletas incluídos).

O projeto cresceu de uma forma inespe­rada ao ponto de ser considerado num top (em 15º lugar em 2017) dos blogs mais relevantes na área da medicina desportiva. Também recentemente vimos um dos artigos ser publicado no “Trust me, I’m a Physiotherapist” que conta com mais de 300 mil seguidores.

Temos um público global desde Austrá­lia aos EUA (que aliás são 2 dos países no top 5 das visitas). Cresceu também o número de colaboradores e a nossa equipa internacionalizou-se, contando com profissionais reconhecidos das mais diversas nacionalidades. Neste momen­to o nosso problema é o tempo para dar saída às obrigações e solicitações que começaram a surgir com o crescimento do projeto.

 

Tem menos de 40 anos e já atingiu patamares que são o sonho para pes­soas bem mais velhas. Angustia-o o facto de, depois daqui, não conseguir renovar o seu entusiasmo? No fundo, há algum risco em ter chegado tão alto, tão novo?

Sinceramente não sou uma pessoa que viva a pensar no pas­sado, ou com obsessão pelo futuro. Gosto de viver o dia a dia e esse é o meu foco. Todos os dias são novos desafios e em cada doente que tratamos, em cada reunião que realizamos o desafio está presente. Tento ser feliz todos os dias e isso passa por dar o meu melhor, não só no trabalho, mas também em casa onde tenho o meu projeto familiar que já conta com 2 descendentes, que são um dos maiores desafios da minha vida e que tornam esse projeto de valor inestimável para mim.

Acredito muito na seguinte frase: “Success is not the key for happiness. Happiness is the key to success. If you love what you are doing, you will be successful”.

 

E que fatores pensa terem sido determinantes para o seu sucesso?

O facto de amar o que faço e, de uma forma natural, me ter dedicado desde cedo à medicina desportiva e ter procurado preparar-me da melhor forma para poder agarrar as oportuni­dades que eventualmente surgissem. Depois precisamos de sorte para que elas apareçam [e eu tive… muita sorte!] e assim que elas surjam, não hesitar e agarrá-las com toda a dedicação. Mas tudo isto é natural se gostarmos mesmo do que fazemos…

 

No desempenho das suas funções, é provável que já se tenha sentido injustiçado alguma vez, com considerações de diferentes estruturas dos clubes. Como lida com isso? Já alguma vez sentiu que o esforço era inglório?

Existem sempre momentos menos bons ou de critica destrutiva. Eu procuro estar sempre de consciência tranquila, e isso passa por dar o melhor de mim e assumir sempre as minhas respon­sabilidades.

O futebol é um jogo e assim como dizem os aficionados do poker ganha aquele que souber conviver melhor com os mo­mentos que parecem menos favoráveis. Não deixo que esses momentos assombrem aqueles que são os meus valores e prin­cípios básicos. Mantenho-me sempre fiel a eles.

 

Quem são as personalidades que mais o inspiram?

Pergunta muito complicada. As principais estão no meu seio fa­miliar, alguns infelizmente já partiram. Admiro-os porque foram os responsáveis pela minha educação e são a base daquilo que eu sou.

A nível nacional, tenho uma admiração enorme pelo Professor Sobrinho Simões - foi meu professor na faculdade e é uma per­sonagem absolutamente fascinante. Nunca vi ninguém conse­guir simplificar temas tão complexos como ele e isto aliado a um discurso apaixonado que o torna absolutamente cativante. Personifica outra das minhas máximas. “in doubt… keep it stu­pid simple”.

Internacionalmente sigo o Dalai Lama, admiro os seus discur­sos e ensinamentos. Acredito na sua abordagem para tornamos este mundo melhor e sustentável.

 

Quais os seus projetos para o futuro?

Como referi anteriormente vivo o presente e, neste momento, os meus projetos para o futuro são ter sucesso nos do presente. Por isso, espero poder desempenhar com a máxima competên­cia os projetos a que me propus e que passam pelo Sporting Clube de Portugal e pela FIFA, onde iniciei funções agora em 2019. Espero poder contribuir para a evolução da medicina do futebol em Portugal e, se possível, a nível internacional.

 

Para terminar, pedia-lhe que nos deixasse uma mensa­gem/ conselho para os profissionais que querem traba­lhar no mundo do desporto de alta competição.

Ter amor por esta área é condição sine qua non para terem sucesso. Invistam tempo e dinheiro na vossa formação após a faculdade, é fundamental estarem preparados para agarrar as oportunidades. Não hesitem quando elas surgirem e demons­trem muita motivação e disponibilidade. Não desesperem, ter paciência é uma virtude, sejam fiéis aos vossos valores e princí­pios… o vosso momento de sorte vai chegar!

 

Esta entrevista fez parte do número 6 da Bwizer Magazine – pode vê-lo na íntegra aqui.

Partilhe esta notícia