À conversa com Prof. Doutor José Pinto da Costa (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Quando lhe pedem para se apresentar, o que diz? Como sintetiza mais de 80 anos de vida como médico?

Em regra, as pessoas dizem que eu não preciso de apresen¬tação. Mas para quem quiser a minha apresentação digo que sou médico.

 

Ser médico era uma vocação clara ou foi algo que, apenas, aconteceu?

Ser médico foi a única opção que escolhi como própria, desde que me lembro, talvez com quatro ou cinco anos. Provavelmente, influenciado pelo respeito e atitudes elogiosas a um meu parente notável, um médico e professor da Faculdade de Medicina do Porto. Todos temos as nossas referências e não raras vezes são cultivadas pela família.

 

Como entra a Medicina Legal na sua vida?

A Medicina legal, como aplicação de conhecimentos biopsicológicos ao direito, na interpretação do comportamento humano perante as leis, preencheu a minha particular atenção para a justeza da pessoa humana como ser social. Inicialmente a medicina legal entrou na minha vida de manhã pela realização de autópsias e na parte da tarde pelo exame de pessoas vivas para realização do dano sofrido nas mais diversas situações. O aprofundamento das múltiplas questões envolvidas foi surgindo e, progressivamente, a necessidade de melhorar o que traz mais entusiasmo e gratificação.

 

E, tendo lidado tanto com a morte, o que este contexto lhe ensinou sobre a vida?

O lidar com a morte cria mecanismos de rejeição que estimulam o prazer de viver, aproveitando o momento que passa e que não volta.

À conversa com Prof. Doutor José Pinto da Costa (Bwizer Magazine)

Uma dimensão crítica da sua vida tem sido o ensino. Porquê esta ligação tão profunda?

A melhor maneira de aprender, é ensinar, é transmitir o conhecimento que a experiência nos vai permitindo acumular ao longo do tempo. Os alunos foram sempre uma motivação forte de reflexão e de aprendizagem.

 

Encontra diferenças entre os estudantes de hoje e do início da sua carreira? Olha para trás com saudosismo ou pensa que as gerações atuais não comparam mal com as anteriores?

Não são melhores nem piores, são estruturalmente diferentes, com múltipla informação disponível, nem sempre facilmente as¬similável em confronto com a idade. O futuro está a ser constru¬ído pelos jovens, na sua dimensão sociocultural.

 

Como vê o ensino da medicina hoje, em Portugal?

Muito mais técnico que humanista. O futuro será o de uma me¬dicina integrativa que não trate só os sintomas, mas sobretudo as causas.

 

E a saúde, que parece estar envolta em muitas dificuldades, como a vê?

O grande problema da saúde é o da saúde mental, cuja deficiência se confronta com inúmeras situações negativas da sociedade como a violência doméstica nos seus mais diversos comportamentos, culminando no homicídio e no suicídio.

 

Um dos traços que lhe são atribuídos é o humor e a capacidade de entusiasmar audiências. É algo que sempre teve ou veio com a experiência?

Sem humor a pessoa é um cadáver adiado, a quem pouco tempo falta para finar. O humor é o lubrificante da comunicação entre as pessoas, prolongando-lhes o bem-estar e a probabili¬dade de vida. Sou estruturalmente otimista e alegre e sempre me foi atribuído um certo humor, cujo carácter familiar prova a influência genética. A experiência de vida não aumenta o humor, mas facilita o seu apreço pelos outros e a tolerância para certas afirmações ou respostas. A brincar vão-se dizendo as verdades.

 

É uma figura muito conhecida. Já teve algum episódio caricato na rua?

Não tive nenhum episódio caricato na rua, no sentido do cómico ou grutesco, ridículo, burlesco ou irrisório. Com o correr do tempo, situações outrora caricatas atualmente são vulgares. O critério da normalidade é definido pelas maiorias e nesse sentido continuo a ser apelidado de Pai Natal pelas crianças, nos locais públicos.

 

Projetos para o futuro.

Continuar a viver, a aprender e a ensinar num ciclo vicioso que desejo que seja mais do que simplesmente o dia seguinte, e que isto seja por muitos anos, pois gosto muito de viver.

 

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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