A fisioterapia precisa de autores e de não ser vítima da sua história | Por Ana Rita Pinheiro (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 3ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Num período crítico para os fisioterapeutas em Portugal, em que outras profissões da área da saúde de alguma forma se sentem fragilizadas ou ameaçadas com a regulamentação idónea do exercício profissional do fisioterapeuta, façamos uma breve reflexão sobre o que identifica e distingue este profissional de saúde. Qual é, indubitavelmente, o seu objeto de conhecimento? Naturalmente que, para qualquer fisioterapeuta, a resposta imediata será: o movimento e a função.

De forma simples e estruturada, artigos recentes abordam o movimento numa perspetiva de sistema, o qual integra diferentes sistemas orgânicos fisiologica¬mente relacionados com o movimento(1,2). Nesse sentido, da mesma forma que o neurologista é responsável por uma prá¬tica médica focada na função e disfunção anatomofisiológica do sistema nervoso, o fisioterapeuta terá uma responsabilidade equivalente sobre o sistema do movi¬mento. Recorrendo ao mesmo exemplo, em vez de realizar um diagnóstico neu¬roanatomopatológico, seguido de uma intervenção farmacológica e/ou indicação cirúrgica, o fisioterapeuta deverá exami¬nar o sistema do movimento, fazer um diagnóstico da sua (dis)função e definir um plano de intervenção de fisioterapia(1)

É assim fundamental um conhecimento e compreensão dos componentes subjacentes ao sistema do movimento e fatores influenciadores do mesmo, a caracterização da sua fisiologia normal e a identificação de síndromes de disfunção, robustecendo o reconhecimento da especialidade por outros profissionais de saúde. De realçar que, biologicamente, desde um nível macro a um nível micro (biosfera, ecossistema, comunidade, população, espécie, organismo, sistema, órgão, tecido, célula, organelo, molécula, átomo) age-se, reage-se e interage-se em função do ambiente contextual. Assim, a avaliação do sistema do movimento deverá ser enquadrada no contexto, com todas as dimensões que o determinam. 

A fisioterapia precisa de autores e de não ser vítima da sua história

Note-se que, em nenhum momento, foi referido o termo reabilitação. Mais ainda, que a intervenção do fisioterapeuta não estaria direcionada para a patologia, diagnosticada e referenciada pelo médico.

Tendo por base um estudo recente sobre a incorporação do sistema do movimento nos programas curriculares dos cursos de fisioterapia, parece haver uma grande variabilidade nos currículos, desde a ausência da sua referência à sua inclusão ao longo do curso, passando por breves alusões ao mesmo(3). Este achado vem, de alguma forma, ao encontro de um livro recente(4), cujo título provocatório, “O fim da fisioterapia”, merecerá alguma atenção e reflexão, sobretudo pelos agentes centrais na modelação do futuro da profissão. Citando Nicholls(4), “se se continuar a praticar fisioterapia da forma como ela decorreu no passado, a profissão tornar-se-á obsoleta num futuro próximo.”

Torna-se, assim, emergente reconhecer o sistema do movimento e tê-lo como construto central na identidade da profissão do fisioterapeuta(2). Estarão, no entanto, as escolas, o sistema e instituições de saúde e a sociedade preparados para uma implementação imediata desta visão? Certamente a resposta mais sensata e coerente será: não! Então, o que pode ser feito? Existem pelo menos duas opções: uma confortável, em que nos adaptamos perante a evidência científica previamente modelada por uma herança biomédica focada na patologia, conduzindo a um raciocínio clínico centrado num diagnóstico de doença; e uma desconfortável, em que o raciocínio clínico assenta num diagnóstico baseado na fisiologia do sistema do movimento, centrado na pessoa e na saúde.

Importa perceber que a primeira opção implica uma atualização dos profissionais clínicos e académicos, enquanto que a segunda deverá requerer uma mudança de atitude dos clínicos e uma reformulação estrutural do cerne da maioria, se não de todos, os planos curriculares. Aproveitando para citar Cury(5): “educar é a tarefa mais complexa do mundo moderno e, infelizmente, o ensino clássico dedica-se à saturação da memória, não explorando o capital intelectual do cérebro humano, pensador, criativo, dinâmico, reduzindo os estudantes a recetores herdeiros, que impõem ou executam porque não sabem expor as suas ideias ou pensar antes de agir(5).” Ora, se a herança estiver focada na patologia, estará o fisioterapeuta alinhado com o seu objeto de conhecimento e estudo?

À luz de tudo o que foi exposto, a fisioterapia precisa de autores e não ser vítima da sua história! Assim, fica o repto de se unirem as partes interessadas, passando sobretudo pelas escolas e clínicos, com impacto nos decisores institucionais e políticos, de forma a definir estratégias alinhadas com uma visão do fisioterapeuta no século XXI. De realçar que esse desafio carece também de uma atenção especial sobre os dados epidemiológicos da atualidade que nos mostram que, paralelamente ao aumento da longevidade, aparentemente apetecível, se assiste a um aumento significativo de doenças não transmissíveis, na sua maioria relacionadas com o sistema do movimento, resultantes fundamentalmente de hábitos comportamentais(6,7). Nesse sentido, a promoção da saúde, habitualmente vista como um parente pobre da fisioterapia e pouco atraente aos olhos dos estudantes, enquadra-se na linha da frente de umas das principais preocupações da Organização Mundial de Saúde, o envelhecimento ativo e saudável(8), otimizando, desde cedo, o potencial da pessoa para uma vida longa com qualidade.

 

Este artigo fez parte da 3ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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