A Lesão Muscular com mais ocorrência no Futebol Estratégia de Prevenção | por Nuno Cerdeira (Bwizer Magazine – 2ª ed.)

 

Este artigo fez parte da 2ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Lesões musculares no Futebol: isquiotibiais

Hoje em dia, o termo prevenção de lesões é dos mais men­cionados no ambiente desportivo. De facto, dentro do quadro patológico, as lesões musculares são, na sua maioria, o princi­pal desafio para os jogadores de futebol, assim como para as equipas médicas e equipas técnicas, representando mais de um terço de todas as lesões no futebol. Dentro deste percentual, as lesões nos Isquiotibiais ocupam quase 40%, sendo a lesão muscular mais comum entre os futebolistas.

 

Identificação dos riscos

Um jogador que sofra de uma lesão da zona posterior da coxa para em média 2 semanas, sendo que o período pode esten­der-se sensivelmente até um mês, com todas as repercussões derivadas dessa paragem.

Para melhor definirmos o que podemos fazer para tentar pre­venir esta lesão, podemos dividir os riscos associados em dois grupos: os não modificáveis e os modificáveis. Os primeiros es­tão diretamente relacionados com a raça, idade ou, por exem­plo, as condições climatéricas, ou seja, apesar de ser uma reali­dade palpável, o atleta não pode interferir nas mesmas.

Por outro lado, identificar os fatores de risco modificáveis é crucial para reduzir o número de lesões. Entre eles, podemos assinalar como exemplo a força, a coordenação e amplitude de movimento.

A Lesão Muscular com mais ocorrência no Futebol Estratégia de Prevenção  por Nuno Cerdeira (Bwizer Magazine – 2ª ed.)

Prevenção: periodização e força

Considerando a importância que a força tem para diminuir o fator de risco de lesão nos isquiotibiais, a normalização dos rácios de força excêntrica vs. concêntrica da zona da coxa é fundamental para prevenir o excesso de tensão na mesma. No entanto, como a ocorrência da lesão é multifatorial, apesar de todos os esforços, as estratégias de prevenção são ferramentas que nos permitem diminuir a ocorrência de lesão, não garantido, por sua vez, o seu total desaparecimento.

Para conseguirmos elaborar um plano de ação criterioso, deve­mos fazer avaliações na pré-epoca e monitorizar no seu decor­rer para conseguirmos assegurar a eficiência do programa de prevenção de lesões vigente, diminuir os fatores de risco duran­te a época e ter a certeza que os atletas que não apresentavam nenhum fator de risco na pré-epoca não o desenvolvem durante a época desportiva (por ex.: défice de força). No entanto, é interessante assinalar que, apesar de uma série de fatores serem muito importantes para o risco de lesão (por exemplo: os défices de força ou o estado de fadiga que o atleta apresenta nos últimos 20 minutos de jogo), o que hoje em dia é visto como o fator mais de­cisivo para contrair uma lesão muscular é a (má) gestão de cargas de treino.

Por isso, talvez seja importante ver o programa de prevenção de lesões como uma abordagem mais vasta que passa, tanto pela equipa médica (com a respe­tiva monitorização das cargas de treino nos treinos e jogos), como também pela equipa técnica (com a periodização de treino, muitas das vezes readaptada à

semana -microciclo- consoante o número de jogos da equipa).

Hoje sabe-se com certeza que o atleta deverá ter uma rotina de ginásio para corrigir os seus défices de força ou man­ter os seus níveis caso esse défice não ocorra. Parece estar claro também, que os tipos de treino de força que devem ser treinados pelos futebolistas são maiori­tariamente a força máxima e a potência muscular, podendo as mesmas ser feitas de forma combinada ou separadamente, consoante o planeamento da equipa.

Para efetuarmos um planeamento de treino de força direcionado para o atleta devemos ter em conta algumas ques­tões, nomeadamente que a recuperação muscular demora pelo menos 48 horas quando o indivíduo é exposto a estímu­los de alta intensidade e que é preferível que o treino de força seja aplicado no fi­nal do treino em vez de o ser no início para evitarmos fadiga muscular no treino de campo.

Além do mais, será importante reforçar que é crucial para o jogador ter um core bem ativo e forte, assegurando assim a capacidade de estabilização do tronco e a capacidade de estabilização de rotação; sendo estes domínios essenciais para a manutenção da saúde do atleta.

 

Monitorização das cargas de treino

Como é comum em outras áreas do des­porto e saúde, a perceção interna de fa­diga (Ratio Perceived Exertion - RPE) é crucial para avaliarmos a capacidade do jogador para treinar/jogar. No entanto, dados mais objetivos parecem ser decisi­vos por nos permitirem quantificar e com­parar as cargas de treino entre sessões. Entre a grande variabilidade de dados que podem ser avaliados pela monitori­zação por GPS existem alguns conside­rados essenciais para acompanharmos o atleta da melhor forma, sendo eles:

  • Rácio cargas de treino (<0,8 ou >1,5)
  • Incremento semanal de cargas de treino (>10% aumenta o perigo de ocor­rência de lesão);
  • Número de acelerações/desacelera­ções (>2m/s);
  • Distância total em alta intensidade (>5,5m/s);
  • Distância total em sprint (>7m/s);
  • Simetria de corrida.

  

Conclusão

O conhecimento acerca de tudo o que ro­deia as lesões musculares é fulcral para qualquer profissional de desporto. De facto, devido à sua alta ocorrência e por implicar longos períodos de recobro, as lesões musculares podem afetar o rendi­mento do jogador e da equipa na qual o mesmo se inclui (em média são os joga­dores titulares que se lesionam mais).

Embora os programas de prevenção de lesões e o aumento da performance pa­recerem ter muito mais efeito se forem delineados de forma claramente individu­alizada, não é de todo – e, por questões multifatoriais - ainda uma abordagem realista para poder ser aplicada na maior parte das equipas de futebol profissional.

Por isso, de forma a tornar proveitoso um programa de treino de prevenção no enquadramento duma equipa de futebol, será importante equilibrar uma rotina pe­riodizada a pensar no beneficio de todos os jogadores, podendo manipular-se indi­vidualmente algumas variáveis de treino como o descanso, volume e frequência, de modo a obtermos tanto quanto possí­vel, as adaptações crónicas pretendidas.

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