Cólica do Bebé | Por Sofia Milhano (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 5ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Hoje em dia, e apesar de haver bastan­te investigação nesta área, ainda não se sabe muito bem o que são as cólicas, nem tão pouco a sua ou as suas causas.

Sabemos sim que será uma desordem benigna que afeta cerca de um quinto dos bebés, principalmente nos seus primeiros meses de vida, acompanhada por crises de choro angustiantes com predileção noturna.

Em 1954, o Dr. Morris Wessel definiu as cólicas como uma condição em que um bebé, bem alimentado e saudável, tem períodos inexplicáveis de choro intenso e estados de grande agitação por mais de três horas por dia, por mais de três dias por semana, e por mais de três semanas.

Epidemiologicamente não se conhecem diferenças em relação à alimentação do bebé ser materna ou artificial, ao sexo, ao parto, ou até perante um bebé de termo ou pré-termo.

Em osteopatia pediátrica as cólicas são uma desordem, que leva cada vez mais pais a procurarem auxílio profissional. Embora consideradas normais por gran­de parte dos pediatras, não existe razão para continuar a deixar um bebé chorar durante dias, se a sua condição puder ser melhorada. Apesar da literatura indi­car que as cólicas têm início por volta das duas semanas de vida, a minha experiên­cia diz-me que assim que um bebé nasce pode sofrer de cólicas ou, se preferirmos dizer, de algum desconforto abdominal.

O desconforto dura em média três me­ses, tempo que o organismo leva para amadurecer o mecanismo da digestão. No entanto, etiologicamente poderemos considerar algumas teorias. Segundo o modelo interativo, a cólica representa uma tentativa falhada do bebé para co­municar com os pais, uma perturbação da relação mãe-filho.

Cólica do Bebé | Por Sofia Milhano (Bwizer Magazine)

Carey diz que o choro excessivo do bebé é o resultado de acontecimentos fisiológi­cos normais que desencadeiam o choro em lactentes, os quais são sensíveis a esses estímulos. A mãe, segundo esta teoria, é responsável por não conseguir reagir da melhor forma às necessidades do bebé.

Sptiz afirma que existe por parte da mãe uma solicitude ansiosa primária, resulta­do de uma culpabilidade devido a uma hostilidade inconsciente; o bebé reage assim com uma resposta fisiológica, ou seja, a cólica.

Kreisler incrimina a mãe, atribuindo-lhe um padrão ansiosa-tensa, o qual resulta num padrão de tensão por parte do bebé que é transformado em cólicas.

Michel Soulé considera que esta entidade é devida à falência da mãe como regula­dora da homeostase do bebé, ou por não exercer o papel de barreira protetora face a estímulos ambientais adversos, ou por ser ela própria, a mãe, a emissora de si­nais contraditórios.

No entanto há outros autores que con­sideram a ansiedade da mãe não como causa, mas sim como consequência das cólicas.

Existe ainda a teoria neurológica, em que a cólica será atribuída a um sistema ner­voso central imaturo. Brazelton considera que o sistema imaturo do bebé repre­senta para este uma hipersensibilidade. À medida que o dia avança, o sistema nervoso fica carregado de estímulos, transformando-se num período de grande agitação, pelo que o choro funciona como uma descarga, após o qual o sistema nervoso se reorganiza novamente. Com a maturação do sistema nervoso, este síndrome desaparecerá no fim do primei­ro trimestre. Note-se que no terceiro mês após o nascimento, o bebé completa o ci­clo de doze meses desde a fecundação, ou seja, um ano. É nesta fase que deixa de ser um recém-nascido. No 4º mês, a flora intestinal está formada e o cérebro e intestino já se entendem melhor, pelo que as cólicas tendem a desaparecer. Este modelo podia pressupor que os bebés pré-termo iriam sofrer de mais cólicas, o que não se verifica.

Barr levanta a hipótese do choro da cólica poder dever-se a diferenças individuais no controlo e regulação dos estádios do bebé.

Mais uma hipótese etiológica é sugerida pelo modelo da dismotilidade intestinal, a qual pode ter vários intervenientes, nomeadamente as proteínas do leite de vaca ingerido pela mãe, a lactose e a mo­tilina. No que se refere às proteínas do leite de vaca existem, tanto estudos que afirmam essa ligação, como estudos que a desmentem. Segundo esta teoria a in­tolerância à lactose fará com que a ação osmótica da lactose não absorvida leve a um aumento de peristalse e à cólica.

De todas estas teorias ou hipóteses etio­lógicas não temos ainda certezas se cada uma funciona por si só, ou não e, prova­velmente, estamos perante uma etiologia multifatorial.

Do ponto de vista osteopático acredita­-se que desde que o feto está in útero, e até ao momento do nascimento, este poderá ser submetido a diversas tensões fasciais, tensões essas que se podem re­percutir nos ossos do crânio e em todas as membranas envolventes ao sistema nervoso central. Sendo assim podem ori­ginar-se bloqueios membranosos e sutu­rais, dificultando a fisiologia de diferentes estruturas.

Falando do nervo vago, o maior nervo craniano, este tem origem na parte pos­terior do bulbo raquidiano, desce pelo pescoço e tórax, terminando na região abdominal. É essencialmente visceral, e durante o seu trajeto, inerva a farin­ge, laringe, coração, entre outros, sendo através dele que o cérebro percebe como estão estes órgãos e regula diversas das suas funções. Faz também parte da for­mação dos plexos viscerais que promo­vem a inervação autónoma das vísceras torácicas e abdominais. Algumas das suas principais funções são coordenar os movimentos do esófago e intestino, po­dendo afetar desta forma todo o sistema gástrico e acabando por ser a causa de desconforto abdominal nos recém-nas­cidos. Será interessante verificar que as cólicas têm tendência a passar no tercei­ro mês, altura em que o bebé possui um melhor controlo de cabeça.

Esta constitui mais uma hipótese na cau­sa “multifatorial” das tão temíveis cólicas.

Resta-me assim terminar, com a certeza de que as cólicas podem ser aliviadas com o tratamento certo, acabando com o choro desesperante dos bebés e as noi­tes mal dormidas pelos pais. Acredito que esta hipótese explica muita da falta de certezas absolutas e conhecimento que ainda hoje existe acerca do tema.

 

Este artigo fez parte da 5ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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