Joelho valgo - o controlo neuromuscular na profilaxia da articulação do joelho

A estabilidade do joelho será comprometida se as articulações adjacentes, anca, tornozelo e pé, não assegurarem um movimento correto e estável do fémur e da tíbia. A rótula, sendo o outro osso participante na articulação, também terá comprometido o seu devido alinhamento e estabilidade se o equilíbrio muscular postural e articular não for o adequado.

Todos estes são fatores que contribuem com um risco aumentado de sofrimento com dor sobre a articulação do joelho.

Joelho valgo - o controlo neuromuscular na profilaxia da articulação do joelho

Estudos sobre lesões no joelho ocupam um espaço destacável na literatura, muitos destes envolvendo a dor patelo-femoral e outros a lesão de ligamento cruzado, uma de alta incidência e outra de grande gravidade.

O estudo que realizei durante o mestrado, e que mais tarde tive o privilégio de publicar, teve como interesse central analisar os efeitos da fadiga muscular sobre a estabilidade da articulação do joelho durante a receção ao solo. Isto obrigou-me a uma revisão sistemática sobre tudo o que envolve esta articulação, com o qual vim a perceber que existem algumas particularidades importantes a considerar na hora de avaliar e intervir no acompanhamento de atletas [1].

O joelho é uma das articulações mais complexas do corpo humano, sendo nos ligamentos cruzados, principalmente no Ligamento Cruzado Anterior (LCA), que se localiza o ponto fulcral da cinemática desta articulação. O valgismo – joelho projetado para dentro – acentuado e a híper-laxidez são fatores que favorecem o aparecimento precoce de episódios de instabilidade.

A sobrecarga no valgo aumenta a força aplicada no LCA, pois pode aumentar o deslizamento anterior da tíbia (translação anterior) em relação ao fémur [2]. Um joelho valgo também predispõe a outras lesões, como as meniscais, síndroma de hiperpressão externa da articulação fémuro-tibial, tendinite dos músculos da pata de ganso e semimembranoso e o conflito fémuro-patelar por hiperpressão externa da rótula [3].

Hoje sabemos que as mulheres são as que mais sofrem com este tipo de instabilidade na articulação do joelho e como consequência são as que mais sofrem com dores, artrite e lesões de LCA. Quanto a isto, parece haver três grandes contribuições que estão na origem para esta disparidade entre os sexos na lesão do LCA. Entre eles, FATORES ANATÓMICOS, como a menor chanfradura intercondiliana [4]; FATORES HORMONAIS, onde durante a fase ovulatória, o estradiol, a progesterona e a laxidez anterior do joelho aumentam os riscos de as mulheres apresentam maior momento de joelho valgo e rotação interna, que dão uma maior predisposição a sofrer lesão do LCA [5] [6]; FATORES NEUROMUSCULARES, como o padrão de ativação muscular retardado nos músculos posteriores da coxa (isquiotibiais) e o desequilíbrio de força muscular especialmente entre musculatura anterior (quadríceps) e posterior (isquitibiais) da coxa.

Destes, o controle neuromuscular deficiente ou anormal da biomecânica da articulação do joelho mostra-se como o principal contribuinte para o mecanismo de lesão do LCA e de artrose a longo prazo, principalmente entre as mulheres [7]. Portanto o rastreio, a identificação e a correção de padrões de movimentos que colocam em perigo a articulação, como o valgo dinâmico, são os primeiros passos na prevenção de lesões de joelho em atletas. Para isso, o treino de força, bem como os exercícios de salto, flexibilidade e de equilíbrio devem fazer parte regular num processo de treino que visa a prevenção e a melhoria da performance, seja na corrida ou qualquer outra disciplina, pois como vimos os aspetos de aprimoramento das capacidades físicas relacionadas às estruturas neuromusculares são essenciais para qualquer modalidade desportiva.

 

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Bibliografia

[1] Quadros, D.; Almeida,B. & Pinheiro, C. (2010). Efeito da realização de um jogo de futebol nas características cinemáticas do joelho na recepção ao solo. Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, Portugal – Revista Portuguesa de Ciências do Desporto 11(Supl.4) 31-105 pág. 76-77

[2] Hewett, T. E., Myer, G. D., Ford, K. R., Jr., R. S. H., Colosimo, A. J., McLean, S. G., et al (2005). Biomechanical measures of neuromuscular control and valgus loading of the knee predict anterior cruciate ligament injury risk in female athletes. The American Journal of Sports Medicine, 33(4), 492-501.

[3] Aires, L., & Horta, L. (1995). Biomecânica segmentar na traumatologia do futebol. In L. Horta (Ed.), Prevenção de lesões no desporto. (2 ed., Vol. 15). Lisboa: Editorial Caminho.

[4] Soares, J. (2007). O treino do futebolista: Lesões, nutrição. (Vol. 2). Porto: Porto Editora.

[5] Edward M. Wojtys, MD, Laura J.Huston, MS, Melbourne D. Boynton, MD, Kurt P. Spindler, MD, Thomas N.Lindenfeld, MD. (2002). The Effect of the Menstrual Cycle on Anterior Cruciate Ligament Injuries in Women as Determined by Hormone Levels. The American Journal of Sports Medicine, Vol. 30, Issue 2, pp. 182-188

[6] Bell DR, Blackburn JT, Hackney AC, Marshall SW, Beutler AI, Padua DA. (2014). Jump-Landing Biomechanics and Knee-Laxity Change Across the Menstrual Cycle in Women With Anterior Cruciate Ligament Reconstruction. Journal of Athletic Training, 49(2):154-162.

[7] Myer, G. D., Ford, K. R., Khoury, J., Succop, P., & Hewett, T. E. (2010). Biomechanics laboratory-based prediction algorithm to identify female athletes with high knee loads that increase risk of ACL injury. British Journal of Sports Medicine, 1-9.

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