Confronto entre inervação recíproca e co-ativação na proteção da coluna | Por Hugo Loureiro

A interpretação habitual do binómio lombar/abdominal, como protetor da coluna, obedece, frequentemente, no exercício físico, a um critério extrínseco, relacionado com o recrutamento indiscriminado da musculatura abdominal. O transverso abdominal (TA) inclui-se nesta conceção, trabalhando em co-ativação com o soalho pélvico (SP), protegendo as vísceras, assumindo com o diafragma uma função essencialmente tónica (Hodges, 2000), capazes de aguentar longas solicitações.

Interessa entender o sentido da inervação recíproca, habitualmente associada à locomoção, face à co-contração, associada à postura (Nielsen, 2016), para a proteção da coluna. No controlo da coluna, face às exigências que esta sofre, no quotidiano e, mais ainda, em esforços específicos, devemos enquadrar a respetiva metodologia protetora adequada, bem como a consequente fisiologia da situação.

Se o objetivo é proteger a coluna, atendendo ao dia-a-dia, é suposto ser com um mecanismo tendencialmente isométrico (Baldo, 2010). A ativação da cadeia muscular profunda providencia um controlo dinâmico do core (Lee, 2016), estando o SP também envolvido nessa proteção (Chmielewska et al., 2015). A falência do TA e do SP, com a mesma inervação motora, fará deslizar órgãos, levando a disfunções digestivas, respiratórias, circulatórias e músculo-esqueléticas (Chek, 1999).

Confronto entre inervação recíproca e co-ativação na proteção da coluna

A co-contração pode ser uma opção, embora persista a necessidade de gerir pressões nos órgãos, que sofrem impactos provocados pelos esforços (Mørkved, 2017). Sendo a co-ativação entre o transverso abdominal e o soalho pélvico um mecanismo protetor desses órgãos (Chmielewska et al., 2015), cabe clarificar se é mais rentável do que a co-contração, além de correlacionar uma boa gestão orgânica, com a redução de dores de coluna.

Olhando para as fibras do transverso abdominal, algumas estão orientadas com a parte posterior do tronco, (Kapandji, 2008), sendo legítimo atribuir responsabilidade à proteção lombar, embora não necessariamente à produção de movimentos no plano sagital, por não estarem orientadas com o mesmo (Mal, 2016). A implicação da fáscia toraco-lombar também é significativa no controlo da posição da coluna (Mal, 2016).

Depreende-se que os diferentes mecanismos neuromusculares protetores são indissociáveis, mas persiste a dúvida de qual prevalece, consoante a exigência física de cada tarefa.

Mais carga sobre a coluna pressupõe mais co-contração, no entanto, a atividade dos paravertebrais diminui, sucedendo o contrário, inversamente. Além disso, as dores lombares evidenciam um limitado controlo neuromuscular dos movimentos do tronco, com uma co-contração excessiva (Lee, 2006). Perante esta dicotomia, qual será o meio-termo ou bom senso a utilizar nesta situação?

Estando a modulação da ativação do tronco influenciada por uma carga de esforço prévio (Lee, 2006), não será esta eficiência a capacidade antecipatória do TA, prévia ao movimento do membro (Hodges, 1999), por exemplo?             

Funcionará o TA apenas na co-contração, ou também noutros mecanismos? A resposta do TA decorre de uma coordenação da respiração com o movimento, mediante um controlo prévio (Yazawa, 2014, citado por Mal, 2016). Havendo sinergia entre este músculo e o diafragma, na respiração e em movimentos das extremidades, com uma ativação tónica intercalada, com uma modulação fásica (Hodges, 2000), pressupõe-se um trabalho multifatorial do tronco.

Noutra perspetiva, os movimentos das extremidades predizem a atividade respiratória do TA e do diafragma, por mecanismos reflexos, assegurando uma pressão transdiafragmática protetora das vísceras, sendo o controlo da coluna secundário (Mal, 2016). Este dado sugere a importância da gestão das pressões nos órgãos internos. Daqui emerge a ideia de que a simbiose entre o TA e o diafragma decorre, associando a respiração ao movimento, como resposta às exigências das pressões na coluna e não à sua estabilização. Dir-se-ia que são controladores de pressões, ao contrário de outros músculos, prioritariamente vocacionados para controlar planos de movimento. Este papel poderá ser corroborado pela fáscia toraco-lombar, assistindo na manutenção da integridade da porção inferior lombar e da articulação sacro-ilíaca. (Willard, 2012).

Perante estes dados, existe pouca linearidade, no entendimento fisiológico da musculatura controladora dos movimentos da coluna e das pressões sobre ela exercidas. Será, por isso, necessário, aceitar a complexidade de variáveis fisiológicas e biomecânicas aqui envolvidas.

A inervação recíproca, associada a movimentos mais rápidos, inibe os motoneurónios antagonistas, facilitando a contração dos agonistas, embora não dê firmeza articular. (Baldo, 2010).

Outro mecanismo protetor, que não apenas a inervação recíproca, é a co-ativação alfa-gama, que facilita os motoneurónios alfa, que controlam as fibras tónicas, regulando a rigidez muscular destas, em sintonia com os recetores articulares e ligamentares (Ebenbichler, 2001).

No contexto abordado nesta reflexão, a co-ativação alfa-gama pode assegurar um bom funcionamento da coluna lombar, prevenindo dores, além de disfunções pélvicas e abdominais, interagindo com outros sistemas de proteção mecânica. Poderia também considerar-se a co-ativação alfa-gama, como um catalisador de recrutamento neuromuscular.

A diferença em relação à co-contração é notória, que se cinge à rigidez muscular protetora da coluna, perante cargas internas e externas, mediante músculos antagonistas (Ebenbichler, 2001). Perante esta descrição, sugere-se um papel regulador e não tão catalisador, como a co-ativação alfa-gama.

Sendo a co-ativação entre o TA e o SP eficaz para a melhoria da qualidade de vida, em situação de incontinência urinária de esforço (Ptak, 2017), deduz-se uma interação com a referida modulação de pressões, em movimento, por parte do TA e do diafragma, como vimos anteriormente. O facto da atividade muscular abdominal e do SP aumentarem de pé, é significativo (Chmielewska, 2015), apontando possíveis benefícios das mesmas, na proteção da coluna.

Desta forma, o controlo posicional da coluna é potencialmente indissociável da gestão das pressões internas, em sintonia com a transversalidade do funcionamento do core.

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