Dieta Cetogênica – estará o segredo na gordura? | Por César Leão (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Apesar da atenção que tem tido nos últimos anos, a dieta cetogênica não é propriamente uma novidade. Desde que em 1906 Stefasson observou os hábitos alimentares dos Inuit(1), os possíveis efeitos positivos de uma dieta mais rica em gordura têm sido propalados. Além da sua utilização clinica no tratamento da epilepsia infantil(2), existe atualmente muito interesse sobre a possível utilização desta dieta para o tratamento de várias doenças, como o cancro e a diabetes, assim como método de perda de peso(3). Neste artigo iremos sobretudo tentar desmistificar algumas ideias relacionadas com a sua utilização para a perda de peso, bem como a sua utilização para melhorar o rendimento desportivo.

Não existe um acordo sobre exatamente o que deve ser considerado uma dieta cetogênica, sendo que a definição que mais consenso reúne refere que é uma dieta com um consumo de 20 a 50 gramas/dia de hidratos de carbono, sendo que em termos de distribuição percentual pelos macronutrientes encontramos uma composição de 15-20 % do Valor Calórico Total (VCT) em proteína, de 5-10% do VCT em hidratos de carbono e o restante em gordura(4). O que se pretende com esta restrição em hidratos de carbono é induzir um estado de cetose nutricional, onde como consequência da degradação dos ácidos gordos para obtenção de energia, há um aumento benigno das cetonas circulantes na corrente sanguínea.

O excesso de peso e a obesidade têm vindo a atingir níveis históricos e alarmantes. No mesmo sentido, encontramos também um aumento da prevalência de doenças crónicas como a diabetes e o cancro, que têm na obesidade um dos principais fatores de risco(5). Devido a essa associação, cada vez mais a prevenção e o tratamento incluem a mudança de hábitos alimentares(6). Por essa razão, a procura de uma panaceia universal que resolva todos esses problemas, tem sido utilizado como instrumento de marketing de muitas dietas.

Apesar de haver uma série de mecanismos que podem conduzir ao aumento de peso, é bem aceite pela comunidade científica que a principal razão para que a acumulação de tecido adiposo aconteça se prende com um desequilíbrio calórico, ou seja, com uma ingestão de calorias maior do que as que são despendidas pelo organismo(7). Esta teoria foi nomeada de CiCo – calories in calories out. No entanto, nos últimos tempos, tem-se assistido ao regresso de uma “nova” hipótese, a teoria insulínica. Esta defende que a acumulação de gordura acontece devido ao aumento de produção de insulina, associado a um excesso de consumo de hidratos de carbono. Nesse modelo postula-se que, diminuindo o consumo de hidratos de carbono, se assiste a uma diminuição da produção de insulina, pelo que para a mesma ingestão calórica haverá uma maior perda de peso(8).

Dieta Cetogênica – estará o segredo na gordura? | Por César Leão (Bwizer Magazine)

Talvez o maior proponente desta teoria, ou pelo menos o que mais atenção pública teve, foi o Dr. Atkins. Foi ele que nos anos 70 editou um livro para perda de peso denominado “Dr. Atkins Diet Revolution” que popularizou as dietas extremamente baixas em hidratos de carbono.

Nos últimos tempos, sobretudo pelo trabalho de alguns inves¬tigadores como Noakes e Volek, têm surgido uma série de tra¬balhos que tentam mostrar a superioridade destas dietas relativamente a outras(9). Algumas das razões propostas para esta vantagem prendem-se com uma suposta vantagem metabólica e por permitir um maior controlo da ingestão calórica devido à supressão do apetite.

Relativamente à vantagem metabólica das dietas cetogênicas, ou seja, um maior gasto energético associado apenas à distribuição dos macronutrientes, foi recentemente demonstrado que, se existir, essa vantagem não é significativa(10). Aliás, se considerarmos o fator térmico dos alimentos, que corresponde à energia despendida pelo organismo no processo de utilização do alimento, como uma das razões para um possível aumento desse gasto calórico, também não encontramos razão para que essa vantagem metabólica exista. Dos 3 macronutrientes, a gordura é o que menos energia necessita para a conclusão do seu processo de digestão, enquanto que a proteína, com gastos que podem ir até 30% do valor total ingerido(11) é o que gera maior dispêndio.

Outra razão para que se observem resultados interessantes no que diz respeito à perda de peso tem a ver com a diminuição do apetite associada a estas dietas(12). O aumento da circulação de cetonas na corrente sanguínea poderá ser o responsável por esse maior controlo do apetite(13). Por outro lado , sabendo nós que a proteína é o nutriente mais saciante(14), esse efeito pode estar relacionado com o aumento da ingestão acima do pretendido nessas dietas.

Quando analisamos atentamente os estudos já realizados percebemos que, desde que o valor calórico total e a quantidade de proteína ingerida seja idêntica, não existe vantagem a longo prazo de uma dieta rica em gorduras relativamente a uma dieta rica em hidratos de carbono(15). Eventualmente, dietas ricas em proteína poderão ser interessantes na perda de peso, independentemente da distribuição dos outros macronutrientes(16-18).

Concluindo, o principal fator para o sucesso de qualquer perda de peso continua a ser o fator adesão, que varia consoante a pessoa em questão(19). Além da utilização para a perda de peso, tem-se observado uma cada vez maior utilização deste tipo de alimentação como ferramenta para aumento do rendimento desportivo. E, mais uma vez, não sendo uma temática recente(20), têm ressurgido nos últimos tempos, também fruto de uma exposição mediática que leva a que se tirem conclusões diferentes das expressas na literatura científica.

Mesmo assim, e apesar da explosão de trabalhos nesta área, apenas se encontraram evidências sugestivas da sua utilização em modalidades de fisioculturismo e de endurance(21).

Aquilo que temos hoje são apenas algumas vantagens associadas à utilização de dietas cetogênicas em determinados eventos desportivos(22), como sejam os eventos de ultra-endurance (>42 km) por etapas em autossuficiência. E mesmo considerando que as eventuais vantagens estariam associadas a eventos de maior duração, ainda assim não parece que existam vantagens evidentes em eventos também considerados de endurance(23).

Apesar de se observarem adaptações fisiológicas interessantes do ponto de vista atlético, como um aumento da oxidação da gordura no músculo(24), essas mesmas adaptações não permitem inferir que haverá uma melhoria do rendimento desportivo. Sabendo que até uma maratona se desenrola a uma intensidade de 80 a 90% do VO2 máx. e que o quociente respiratório varia entre 0,95 e 0,97, podemos concluir que o sucesso competitivo depende sobretudo da capacidade de oxidar glicose. Esta associação torna-se ainda mais explícita quando sabemos que há um maior consumo de O2 na oxidação de ácidos gordos livres relativamente à oxidação da glicose, conduzindo a piores resultados no que diz respeito à economia de esforço(23), um aspeto fundamental no sucesso de um atleta(25).

Nesse sentido, parece haver interesse em manipular (periodizar) o consumo de hidra¬tos de carbono de acordo com a altura da época, de forma a maximizar as adaptações pretendidas, sem colocar em causa o rendimento do atleta nas fases fulcrais da época desportiva(26).

Um dos maiores problemas desta dieta é a sua taxa de retenção. Nos estudos em que a retenção foi avaliada, a mesma não ultrapassava os 45%, muito devido à sua limitação de escolhas e à sua baixa palatabilidade(27). Aliás, a nossa aceitabilidade desta dieta pode estar muito associada a ideias preconcebidas sobre o que devemos comer e que tipo de alimentos são menos indicados para nós, levando a que haja uma rejeição da mesma(28). Podemos ficar com uma ideia do que será um dia típico de alguém que segue um plano destes com o exemplo abaixo.

Concluindo, a dieta cetogênica não parece ser a resposta final para o problema do ex¬cesso de peso. Apresenta-se como uma alternativa que, quando ajustada às preferências da pessoa, poderá ser utilizada para controlar a ingestão calórica e nesse sentido conseguir os resultados pretendidos. Já no que diz respeito ao rendimento desportivo para o atleta competitivo, não chega sequer a ser uma alternativa para o dia a dia. Ao longo da época desportiva pode ser utilizada pontualmente, especialmente nos perí-odos não competitivos, podendo contribuir para algumas adaptações fisiológicas que podem ser interessantes no futuro. Ainda sim, parecem existir melhores opções para obter esses mesmos resultados, sendo que também aqui a escolha deverá ser sempre uma prerrogativa do atleta.

 

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

Partilhe esta notícia