É errado pensar que a falta de força não é um problema de saúde – Parte 2 | Por Pedro Correia (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte do Número 6 da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

“As pessoas não decidem o seu futuro, as pessoas decidem os seus hábitos e os seus hábitos decidem o seu futuro.” - F. M. Alexander

 

Há nove anos atrás (2010)(1) , o European Working Group on Sarcopenia in Older People (EWGSOP) publicou uma defini­ção de sarcopenia que foi amplamente utilizada em todo o mundo e essa defini­ção fomentou avanços na identificação e no cuidado de pessoas em risco ou com sarcopenia. Ficou definida como uma sín­drome caracterizada pela perda progres­siva e generalizada de massa muscular e força com risco de resultados adversos, como incapacidade física, pobre qualida­de de vida e morte. Porque a relação en­tre massa muscular e força não é linear (a capacidade de gerar força não depende apenas da massa muscular), os critérios para o seu diagnóstico incluíam baixa massa muscular e baixa função muscular (i.e. força ou performance física).

Depois de sabermos que, em 2016, a sarcopenia foi classificada como uma doença pela Organização Mundial de Saúde, conforme foi referido na primeira parte deste artigo, o EWGSOP(2) atualizou a sua definição operacional e as várias estratégias de diagnóstico, consideran­do agora que a força muscular (medida através da força de preensão ou do teste de levantar-se da cadeira) é o principal parâmetro para medir a função muscular, ainda mais importante que a quantidade de massa muscular. Portanto, é neste contexto, que justificamos o título deste artigo e que reforçamos a importância de partilhar esta mensagem com todos os profissionais de saúde.

As implicações desta condição na saú­de humana são várias e largamente co­nhecidas: aumento do risco de quedas e fraturas(3,4) ; prejudica a realização das atividades da vida diária(5) ; está asso­ciada com doença cardíaca(6), doença respiratória(7) e disfunção cognitiva(8) ; menor qualidade de vida(9) ; perda de in­dependência (10,11,12) e morte(13). Em termos financeiros, os custos na saúde pública também já foram calculados em vários trabalhos. Num estudo de Janssen et. al. (14) , em 2004, os custos da sarcopenia nos Estados Unidos foram estimados em 18,5 biliões de dólares anuais, representando cerca de 1,5% dos custos totais na saú­de. Num estudo realizado cá em Portugal no Hospital de Santo António no Porto e publicado em 2016(15) , verificou-se que os custos de hospitalização associados à sarcopenia foram superiores em 58,5% para pacientes com idade inferior a 65 anos e em 34% para pacientes com idade igual e superior a 65 anos. Mais recen­temente (2018), no Hertfordshire Cohort Study no Reino Unido(16) , verificou-se que os custos associados com a falta de força muscular foram estimados em 2,5 biliões de libras anuais.

É errado pensar que a falta de força não é um problema de saúde – Parte 2 | Por Pedro Correia (Bwizer Magazine)

No cenário atual, em que o fenótipo do envelhecimento doentio prolifera a olhos vistos em todas as nações industrializa­das, em que doenças como a hiperten­são, o cancro, a depressão, o alzheimer e a diabetes tipo II estão a acabar com a vida das pessoas, é fundamental adotar medidas que visem a melhoria da função de cada indivíduo ao invés do diagnóstico de doenças e da administração de medi­camentos que, além de não contribuírem para resolver este problema, poderão ainda agravar a sua condição. Sabemos que os problemas de saúde principais es­tão relacionados com a má alimentação, a inatividade física, a falta de sono, o ex­cesso de álcool, a exposição ao tabaco e aos ambientes poluídos, mas também com a falta de movimento de qualidade, de vigor e de força muscular.

Os benefícios do treino de força na saúde estão bem sustentados na literatura cien­tífica e os mais importantes serão porven­tura os seguintes: diminuição da pressão arterial; diminuição do risco de osteo­porose e sarcopenia; melhoria do perfil lipídico; aumento da capacidade car­diorrespiratória; prevenção e gestão de dores crónicas; aumento da sensibilidade à insulina; melhoria do bem-estar e auto­ confiança. Mais, já são vários os estudos (17,18,19) que têm mostrado uma forte e con­sistente correlação entre o aumento de força e massa muscular com a diminuição da mortalidade, reforçando o facto que o declínio da força associado aos níveis de sedentarismo atuais e ao envelhecimento precisam de ser tratados. Logo, um pro­grama de treino de força bem desenhado, que atenda à competência do indivíduo e que respeite os princípios do treino, vai melhorar todos os indicadores de saúde atrás referidos e ainda todas as qualida­des físicas necessárias (força, potência, velocidade, agilidade, equilíbrio, coorde­nação, mobilidade e endurance) para a realização das atividades da nossa vida diária. São estes parâmetros da função fí­sica que são atualmente propostos como biomarcadores do envelhecimento nos seres humanos(20).

Por consequência, a programação do treino será o fator determinante nesta equação. E se é certo que este proces­so requer o conhecimento imperativo das ciências do desporto, é preciso não esquecer que o mesmo também requer trabalho aplicado no terreno e arte na instrução. Em vez de andarmos tão preocupados em seguir as guidelines e procurarmos pelos resultados estatistica­mente significativos, devemos sim preo­cupar-nos que a nossa abordagem seja relevante para a vida da pessoa. Porque nós trabalhamos com pessoas. Pessoas que têm limitações de tempo para treinar. Pessoas com diferentes responsabilida­des familiares e profissionais. Pessoas que têm vidas diferentes umas das ou­tras. Pessoas que têm uma série de pro­blemas metabólicos e/ou ortopédicos que nenhum estudo randomizado controlado jamais conseguirá reproduzir! Sim, este é um processo complexo.

Finalmente, sabemos que um dos me­canismos responsáveis pela atrofia mus­cular, sarcopenia e envelhecimento é a apoptose, a morte programada das célu­las e um processo fundamental no enve­lhecimento. Mas quando treinamos, co­memos e descansamos adequadamente estamos a enviar um sinal ao nosso corpo para a criação de um ambiente anabólico, um ambiente que potencia a libertação de fatores de crescimento e que suprime a apoptose. Ou seja, o treino de força é um fator de crescimento macroscópico que suprime a morte programada das células (i.e. apoptose) mas ao contrário dos me­dicamentos em que o aumento na dose significa mais doença e dependência, um aumento na carga (mesmo que reduzido) significa mais saúde, mais força e mais vigor. Desta forma, as decisões diárias caberão sempre a cada um: tratar o corpo como um Ferrari ou tratar o corpo como um carro de aluguer.

 

(Este artigo é composto por duas partes, sendo que a 1ª parte foi publicada no número 5 da Bwizer Ma­gazine)

 

Este artigo fez parte do Número 6 da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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