Espiritualidade da dor | Por Tiago Freitas

Gosto de sentir cada pessoa, as suas características, as suas preocupações, a forma como acreditam na vida ou, por vezes, deixaram de acreditar. Gosto de me recostar na cadeira e escutar a melodia das palavras, a dança da expressão corporal, por vezes acanhada, por vezes altiva, em modo de defesa. Afinal, começamos por ser estranhos, até a relação terapêutica se desenvolver.

Nessas minhas andanças, observo frequentemente que pessoas que sofrem de dor persistente apresentam alguns traços em comum que embora menos apoiados pela ciência, não deixarão de ter o seu impacto e, quem sabe, terão mesmo um lugar de destaque, em breve. Quando lhes pergunto o que lhes dá prazer na vida, faz-se silêncio. Um silêncio acompanhado de um olhar para o teto, à procura de uma resposta, em tempos, bem sabida.

Apercebo-me que num assumir de postura de dia-a-dia, o EU se foi perdendo, o prazer foi substituído pelas obrigações responsáveis com a família, com as contas para pagar, com o trabalho. A actividade física foi substituída pelo sedentarismo, tantas vezes em gesto de repetição em qualquer linha de montagem ou posturas incorrectas em frente a um computador. O bom ambiente de escola primária foi substituído por um cenário hostil de sector laboral, com colegas que "fazem a folha" e chefes que não vêem o verdadeiro valor. A vitalidade do corpo foi substituída pelo cansaço físico e mental, que prefere não pensar no assunto. O metabolisbo rápido e eficiente foi substituído pela dificuldade em queimar calorias e o peso foi-se adensando. Os sonhos foram substituídos pela resignação "ao que é".

Apercebo-me que o corpo reage perante ameaças ou a ideia de ameaça e que o sistema nervoso, em ligação directa com o sistema imunológico assume as rédeas e desencadeia respostas de defesa. Apercebo-me que a pessoa sente dor mais facilmente, com estímulos ligeiros (hiperalgesia e alodínea), apercebo-me que o corpo está em constante tensão muscular (resposta reflexa à nocicepção e resposta eferente cortico-retículo-espinal). Avalio a presença de sinais inflamatórios/ irritabilidade (pela acção de mediadores neuro-imunológicos nos tecidos, nos axónios, no GRD, na espinal medula, no tálamo, no córtex). Observo que a falta de horas de sono de qualidade interfere com a resposta dor, o stresse, a alimentação. Penso na alterações neuro-fisiológicas que vão surgindo da periferia para o cérebro e do cérebro para a periferia. Penso que o corpo está em perfeita rejeição da realidade à sua volta, como se gritasse um "já chega!"

Espiritualidade da dor | Por Tiago Freitas

E se na ausência do EU, na ausência de felicidade, de contentamento, o "corpo" decidir bloquear as suas funções mais básicas e alterar o seu sentido? Para uns, a resposta poderá ser a ansiedade, o medo, para outros, poderá ser a dor propriamente dita, sem relação aparente com a sua função essencial - a de defesa transitória do corpo. Gosto de pensar na espiritualidade (diferente de religiosidade) como um encontro com o eu interior e que na ausência desse equilíbrio, o organismo reage, à procura dessa homeostasia ou simplesmente em protesto. 

Gosto de pensar que "a vida ainda não foi substituída" e que a "mudança pode ser a substituição da inércia". Gosto de pensar que é possível alterarmos a fisiologia do sistema nervoso, gosto de pensar o Fisioterapeuta pode ser o facilitador, mas jamais conseguirá fazer esta jornada sem a figura principal, sem a vontade própria da pessoa diante de nós.

O reencontro com o ser interior tem que ser activo, tem que ser natural, tem que surgir de uma necessidade vinda de dentro. Não pode advir da aplicação de técnicas em que a pessoa se deita e espera que o milagre aconteça. Simplesmente não faz sentido! É preciso mudar crençasrelativamente à origem do problema (i.e. 'tenho uma lesão ainda por diagnosticar'); adquirir conhecimentos acerca da dor (i.e. dor nos 'fios eléctricos'); filtrar o que nos prejudica e enfraquece (i.e. pessoa, meio envolvente, actividades); fortalecer hábitos e comportamentos(i.e. alimentação, sono, actividade física, stresse); focar em abordagens activas (i.e. evitar estratégias passivas e placebos). E na abordagem ao movimento, por vezes já negligenciado e rejeitado, é fundamental voltar a sentir 'o direito ao movimento'. Começar por sentir o movimento, mais do que medir a quantidade de movimento; usar os sentidos durante o movimento; sentir o corpo a 'trabalhar'. 

Este é apenas o princípio da estrada. Surgirá o prazer de poder sentir e não de poder medir. Não importa quantos metros andámos antes que surgisse a dor, mas o quanto sentimos cada passo. O foco de atenção muda! O movimento não é o fim, é o caminho para reaprender a sentir, para readquirir funcionalidade, para reaprender a viver, para voltar a sentir o EU. Ainda recostado na cadeira, pergunto-se se durante esse caminho, o 'corpo deixaria de protestar' e passaria a apreciar a vista, quem sabe, pela primeira vez?

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