Punção Seca no Tratamento do Síndrome Miofascial (Trigger Points) | por Luis Nascimento (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 1ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

A expressão punção seca (PS) corresponde à tradução do termo inglês dry needling e consiste na introdução através da pele, de diferentes tipos de agulhas, sem a injeção nem a extração de substâncias ou fluidos, usando somente o estímulo mecânico da agulha e dos efeitos que este provoca no sujeito, com o objetivo de tratar diferentes patologias (Mayoral & Salvat, 2016).

Apesar de serem cada vez mais as indicações terapêuticas (Mayoral, 2012), o Síndrome Doloroso Miofascial (SDM) constitui o seu principal campo de atuação (Mayoral, 2012) (Simons, Travell & Simons, 2002). O SDM define-se como um conjunto de sinais e sintomas causados pelos Pontos Gatilho Miofascial (PGM) (Simons, Travell & Simons, 2002). Quando se diagnostica um SDM deve-se especificar o músculo, o grupo muscular ou a região anatómica onde se encontram os PGM. O PGM define-se, clinicamente, como um foco híper irritável situado numa banda tensa de fibras musculares, que quando comprimido mecanicamente desencadeia hiperalgesia e frequentemente alodinia, podendo referir outros sintomas ou sinais como dor referida, disfunções motoras e disfunções autonómicas (Simons, Travell & Simons, 2002).

Atualmente, a hipótese etiopatogénica mais aceite sobre a natureza dos PGM é conhecida como hipótese integrada, formulada por David Simons em 1996 (Simons, 1996) e difundida posteriormente (Simons, Travell & Simons, 2002). De acordo com esta hipótese, os PGM são pequenas contraturas causadas por disfunções da placa motora, capazes de causar tensão na banda onde se localizam.

Punção Seca no Tratamento do Síndrome Miofascial | por Luis Nascimento (Bwizer Magazine)

Estas disfunções caraterizam-se por uma excessiva atividade da acetilcolina, que pode dever-se a diferentes problemas ao nível pré-sináptico, sináptico e pós-sináptico. A tensão criada pelas contraturas dos sarcómeros causa hipoxia e sofrimento local dos tecidos, um aumento da acidez, um aumento de libertação e acumulação de múltiplas substâncias sensibilizantes e nociceptivas (Shah et al, 2005), responsáveis pela sensibilização periférica, numa primeira fase, com dor local do PGM, seguida de uma sensitização central da dor referida característica do PGM (Mense, Simons & Russell, 2001). De acordo com esta hipótese, os PGM constituem um claro exemplo de um fenómeno que se auto perpetua (Venancio, Alencar & Zamperini, 2008) (DiLorenzo et al, 2004), independentemente se as causas que os originaram se mantêm (Simons, Travell & Simons, 2002).

Isto complica a tarefa de desativar ou eliminar os PGM e explica que a técnica de PS, seja mais eficaz que os tratamentos conservadores (Cagnie et al, 2015). Esta tendência de autoperpetuação também apoia a ideia de que o tratamento do SDM deve ser realizado em duas fases (Mayoral & Salvat, 2016). Numa primeira fase, onde o objetivo é controlar a dor mediante o tratamento dos PGM relevantes para esse SDM, e uma segunda, em que tentam controlar e eliminar todos os fatores etiológicos e perpetuantes dos PGM (Gerwin, 2005). A PS tem demonstrado ser eficaz no tratamento do PGM, no qual, como referido anteriormente, apenas representa a primeira fase do tratamento do SDM (Mayoral & Salvat, 2016), uma parte essencial, mas frequentemente insuficiente, principalmente nos casos crónicos.

Existem várias modalidades de PS para o tratamento dos PGM, que podem classificar-se de diversas maneiras atendendo a diferentes critérios, sendo o critério da profundidade o mais utilizado. De acordo com este critério, as diferentes modalidades da PS podem classificar-se em duas categorias (Mayoral & Salvat, 2016):

  • Técnicas de PS superficiais (PSS), na qual a agulha não contacta com o PGM e contacta apenas com os tecidos que o recobrem.
  • Técnicas de PS profundas (PSP), na qual a agulha atravessa o PGM.

Desvaloriza-se a importância do diagnóstico exato e preciso dos PGM e do SDM (Mayoral & Salvat, 2016) para conseguir que a PS seja eficaz. Um dos primeiros a descrever a efetividade das punções sem infiltração foi Steinbrocker (1994) para o tratamento da dor (Steinbrocker, 1987); desde então têm vindo a ser publicados numerosos trabalhos que expõem a eficácia da PS. Alguns estudos demonstraram que a eficácia da PSP é similar à infiltração de substâncias para o tratamento dos PGM (Garvey, Marks & Wiesel, 1989) (Ga et al, 2007) (Venancio, Alencar & Zamperini, 2008). Mais recentemente, as revisões sistemáticas sobre a eficácia da PS chegam sempre às mesmas conclusões.

Cummings & White, na sua revisão sistemática (Cummings, 2001), concluíram que a punção direta dos PGM parece um tratamento eficaz, afirmando, no entanto, que são necessários estudos controlados para investigar se a PS tem uma eficácia superior ao placebo nos casos de dor dos PGM. Outras revisões sistemáticas posteriores chegam a conclusões semelhantes (Furlan et al, 2005) (Tough et al, 2009). Apesar de ser necessário mais investigação, diferentes estudos têm demonstrado a eficácia da PS na SDM no ombro (Calvo-Lobo et al, 2016), ombro doloroso hemiparético (DiLorenzo et al, 2004), conflito subacromial, cervicobraquialgias (Hsieh et al, 2007), lombalgia (Gunn CC et al, 1980), radiculopatias cervicais e lombares (Chu J., 2000), dor anterior no joelho (Naslund et al, 2002), fascite plantar (Cotchett, Munteanu & Landorf, 2014) , disfunção Temporomandibular (González-Pérez et al, 2012), cefaleias tensionais (Karakurum et al, 2001), cefaleias crónicas (Issa, Huijbregts, 2006).

Nos últimos anos tem-se observado uma importante alteração nas conclusões das numerosas revisões sistemáticas publicadas, na qual se conclui que a evidência clinica sobre a eficácia da PS é alta, no entanto torna-se necessária mais investigação de qualidade, com uma maior uniformidade nas técnicas de PS utilizadas.

Existem estudos eletromiográficos que demonstram que esta técnica é capaz de inibir o ruído da placa motora nas zonas tratadas, sendo a presença deste considerado um dos dados que confirma a existência de PGM (Couppé C et al, 2001). Shah et al. (2005) demonstraram que a resposta de espasmo local (REL) provocado pela PS provoca diminuição de concentração de substâncias nociceptivas e  sensibilizantes existentes na zona do PGM, que pode explicar que a PS provoque um alivio da dor imediato (Mayoral & Salvat, 2016). A PS é uma técnica que permite diminuir o efeito de sensibilização central relacionado com os PGM, induzindo claros efeitos antinociceptivos mediados segmentariamente (Srbely et al, 2010). A PS é uma modalidade de tratamento relativamente nova, usada por Fisioterapeutas em todo o mundo. É minimamente invasiva, barata, fácil de aprender e de baixo risco e a sua eficácia tem vindo a ser confirmada em numerosos estudos.

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