Saúde. Fisioterapia. Movimento. | Por Pedro Maciel Barbosa (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Saúde é o constructo mais forte que a vida nos oferece.

Provérbios e outros lugares comuns da língua portuguesa como “a saúde não tem preço” ou “o saber é para a alma o que a saúde é para o corpo” são bons exemplos da conceptualização e interpretação tão lata que a Saúde pode assumir.

A sua multidimensão toca em campos tão vastos como a eco¬nomia e produção de riqueza, quer na perspetiva mais comercial, quer na perspetiva de condição potenciadora individual de trabalho humano. Toca a cultura e a sociedade, assumindo uma valorização e interpretação tão idiossincrásicas de país para país, de pessoa para pessoa, o que a torna muitas vezes in¬comparável e transcendente. Toca o contexto geográfico e tem¬poral, deixando um rasto tão inquestionável como variável na história. Toca o indivíduo no seu lado mais egoísta e no mais altruísta. Toca a tecnologia e o desenvolvimento, provando in-trinsecamente que o seu valor constituiu o motor mais potente da evolução humana.

 

A Saúde é o constructo mais complexo que a vida nos oferece.

Quando se fala em Saúde Pública abraça-se esta visão ampla, global, macro, de uma solução que pelo seu impacto obriga a uma análise de cabeça levantada procurando sempre ver mais além, ver o todo que o uno não permite.

Esta perspetiva que deve estar presente no planeamento das políticas e dos recursos em saúde, deve estar igualmente presente no momento único que constitui a relação entre os profissionais de saúde e os doentes, transpondo para o nosso processo de raciocínio e prática clínica as multidimensões que a Saúde daquele doente, naquele momento e naquele contexto implicam.

A Fisioterapia, enquanto profissão de saúde, tem ao longo dos anos trilhado um caminho interessante de crescimento e valorização social, na saúde internacional e em Portugal. A sua maturidade encontra-se no seu posicionamento equilibrado entre a evidência científica, consumindo-a e produzindo-a, e a subjetividade inerente às ferramentas de trabalho que possui – raciocínio, movimento e manualidade.

A Fisioterapia constituiu uma das profissões que, pelas suas características próprias, mais tempo dispõe com as pessoas, que mais impacto direto tem ou pode ter sobre a sua saúde, que mais oportunidades em saúde proporciona de um modo efetivo e eficiente, ao utilizar o “movimento” para potenciar a vida de cada um.

Saúde. Fisioterapia. Movimento. | Por Pedro Maciel Barbosa (Bwizer Magazine)

A Fisioterapia é uma das disciplinas da Saúde que mais com­pleta consegue ser na abordagem à saúde e à doença, alcan­çando respostas potenciadoras do estado de saúde em áreas tão diferentes como a Promoção de Saúde ou os problemas de saúde das áreas Cardio-Respiratória, Neurologia, Músculo-Es­quelética, Oncologia ou Dermato-Funcional.

Independentemente da partilha de espaço com outras profis­sões de saúde, como as Ciências do Desporto, a Medicina ou mesmo a Enfer­magem ou, até, algumas áreas das Tera­pias Alternativas, pela sua especialização em Reabilitação e pelo seu domínio de saberes e competências específicas, à Fisioterapia foi e será sempre atribuído um papel central na Saúde e em todos os países.

Esta divisão, esta partilha de espaços, por vezes cinzenta, entre áreas de atu­ação dos diferentes saberes e diferentes profissões é geradora de muita discussão e reivindicações, pelo que constitui, como tal, um domínio da Saúde atrativo e cien­tificamente interessante. Contudo, será fundamental perceber que este domínio de saberes não é exclusivo da Fisiotera­pia, quer do ponto de vista da honestida­de intelectual quanto à produção original do mesmo, quer do ponto de vista cego e abstrato da lei.

Mas, o papel e o contributo da Fisiote­rapia para a Saúde de uma população existe e deve ser fundamentalmente ar­gumentado e defendido através da de­monstração de conhecimento, formação e da evidência dos resultados em saúde, na economia e na sustentabilidade do SNS que, no seu contexto, proporcionam. Se há argumento imbatível nesta discus­são é o conhecimento científico, a reitera­da evidência nos ganhos em saúde e nos ganhos económicos que tornam o seu custo de oportunidade uma vantagem relativamente à concorrência das demais intervenções em saúde.

Muitas vezes, associada à “Ciência” da Reabilitação, gostava que evoluísse o seu posicionamento para junto da “Ci­ência do Movimento”, uma “ciência” que não está assim definida mas que a Fisio­terapia pode e deve desenvolver. A sua relevância e espaço futuros dependerão da forma como a profissão e os seus profissionais se colocarem nesta área do conhecimento, quer através da sua formação e obtenção de competências, quer da sua prática e contributo para o desenvolvimento científico, como tam­bém do seu papel social.

Esta reflexão leva-nos de volta à Saúde Pública e à necessidade de darmos um passo atrás para podermos olhar mais além. Enquanto a Fisioterapia não con­seguir incorporar uma noção global de si própria e identificar as variáveis que lhe estão intrinsecamente associadas, terá dificuldade em se valorizar e refletir en­quanto produto, no mencionado mundo cinzento em que outros poderes corpora­tivos e grandes interesses se mobilizam para evitar, esconder, até tentar esquecer ou mesmo apagar o contributo da Fisiote­rapia, seja pela sua capacidade de fazer lobby, seja pelo viés na demonstração empolada do seu papel que o seu esta­tuto social facilita. O que não se reflete, não se mede, o que não se mede não se avalia, o que não se avalia não se quan­tifica e o que não se quantifica não existe nem justifica que nele se invista.

Este desafio abraça um fundamento que nos deve ser caro: a literacia. Do latim litteratu (culto, sábio), define-se no di­cionário como a capacidade de adquirir conhecimentos, desenvolver as próprias potencialidades e participar ativamente na sociedade.

A Fisioterapia deve encarar de vez a ne­cessidade de promover a literacia junto dos seus profissionais. Literacia pro­fissional que lhe permita ler o seu valor clínico, literacia científica que lhe permita crescer no seu valor científico e em saber medir resultados e impacto da sua inter­venção, literacia digital que lhe permita registar com facilidade e rigor os valores e os resultados dos seus desempenhos, literacia económica que lhe permita medir e vender o seu produto, e literacia cultu­ral que lhe permita ser elevada e educada no ambiente de competitividade feroz que o século XXI representa, com uma peri­gosa deturpação de valores e vontades, com uma defesa cada vez mais cega dos interesses individuais e corporativos das profissões, com um olhar cada vez mais curto, parcial e imediatista sobre os pro­blemas, num mundo cada vez mais instá­vel e desconfiado.

Este desafio é especial para as Institui­ções de Ensino Superior da Fisioterapia que têm de arriscar mais. Têm de sair do seu espaço de conforto, do seu ambiente fechado e assumirem um papel de clara produção e de divulgação abrangente e gratuita de conhecimento científico.Têm de discutir e refletir em conjunto conteúdos e domínios de formação que constituirão no curto e médio prazo as efetivas e eficientes respostas às neces­sidades em saúde das pessoas, e de se posicionarem como verdadeiros agentes potenciadores da intervenção da e na co­munidade e da articulação e complemen­taridade entre setores. Porque esse é o seu papel fundamental. Formar e Educar, Educar para o futuro.

Este desafio é igualmente especial para os profissionais. Culturalmente o por­tuguês é bom a fazer mas tem pouca apetência para planear. Culturalmente o português é bom a reclamar e reivindicar, mas tem reduzida capacidade de se mo­bilizar de forma construtiva e cívica sobre os desafios. Cabe aos Fisioterapeutas ir mais além, evoluir para a noção que o valor social e oportunidades que tanto reclamam depende do conjunto, e que essa unidade, mesmo que variável no modelo de prestação de cuidados e na área específica de intervenção, merecerá sempre uma reflexão global que potencie o Movimento no futuro de melhoria da Saúde e do bem-estar das pessoas.

 

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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