Se cada nutricionista diz uma coisa diferente em que é que devemos acreditar? | Por Pedro Carvalho (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 5ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Na era do digital onde a proliferação da informação atinge proporções nunca antes vistas, a atitude de escuta passiva que outrora existia em quase todas as consultas de nutrição, tornou-se num debate em que o paciente já traz várias questões de casa e onde surgem recorrentemente tiradas como: “mas um colega seu disse uma coisa diferente”, ou “mas eu vi no instagram/ fa­cebook que…”. De que forma podemos então encontrar a informação sobre nutrição e alimentação menos enviesada possível?

Começando pelas redes sociais, estas são um ótimo meio de partilha e di­vulgação de informação, mas não estão, de nenhuma forma, sujeitas a uma revisão de pares, nem ao contraditório. Existem páginas fantásticas, mas na mesma proporção existem páginas que não têm ponta por onde se lhe pegue. O número de seguidores de uma página/pessoa não é, de forma ne­nhuma, o garante de informação de qualidade. Aliás, tendo em conta que no meio académico esta forma de partilha de informação ainda é de certo modo olhada de soslaio, podíamos quase dizer que existe (tendencialmente) uma relação inversamente proporcional entre o número de seguidores de alguém numa rede social e o seu currículo académico (já para não falar da enorme quantidade de bloggers que dão “dicas” de nutrição sem formação na área).

As notícias sobre nutrição partilhadas pelos media, podem também ser uma boa ferramenta (caso não estejam infetadas pelo vírus do clickbait e do sen­sacionalismo), até porque validar primeiro os factos com um nutricionista não custa nada. Mas se aos media ainda pode ser dada uma atenuante numa leitura menos correta dessa informação, no caso dos próprios profissionais de saúde, especialmente os nutricionistas, o caso já é bastante diferente.

Se cada nutricionista diz uma coisa diferente em que é que devemos acreditar? | Por Pedro Carvalho (Bwizer Magazine)

É completamente de salutar que existam opiniões diferentes sobre cada tó­pico e que se discutam as ciências da nutrição com elevação e com base na evidência científica disponível. Só que a este nível existem duas posturas extremas que convém clarificar: uma mais retrógrada que assume que a sua autoridade e curriculum são o suficiente para deixarem de estudar a partir de determinada fase da vida e achincalhar, de forma paternal, quem pensa de forma diferente; e outra demasiado vanguardista que, na ânsia de estar sem­pre na crista da onda do ponto de vista científico, leva à partilha e recomendação de algumas abordagens terapêuticas ou suplementos logo ao primeiro artigo ou si­nal de existência de efeitos positivos. Em suma, é tão mau estar parado no tempo como ser um “catavento científico”.

Seja para posts nas redes sociais, seja para comunicações em congressos ou formações, há sempre necessidade de ter o “filtro ligado”, uma vez que são cada vez mais frequentes manipulações de in­formação, de forma a transmitir uma ideia previamente concebida. Adulterações de gráficos dos artigos originais, escolha en­viesada desses mesmos artigos (vulgar­mente conhecida como cherry picking), apresentação de resultados in vitro ou em animais fazendo a ligação direta para esses efeitos em humanos, são tudo exemplos de estratégias intelectualmente desonestas utilizadas em prol de doutri­nar convenientemente o público-alvo. Es­tas estratégias tornam-se particularmente graves uma vez que o público maioritário de muitas destas páginas e eventos são, por um lado indivíduos interessados na área mas sem formação na mesma e, por outro, estudantes e recém-licenciados ainda sem o arcaboiço necessário para distinguir o “trigo do joio” e que, com a avidez de conhecimento típica das pri­meiras fases de formação, aceitam mui­tas das vezes sem questionar todas as informações que estão a adquirir.

Numa ciência tão recente e com tantas variáveis em equação como as ciências da nutrição, as palavras “exatidão” e “certeza” nunca poderão ser empregues. Existirão sempre (e ainda bem), diferen­tes perspetivas e abordagens a um mes­mo problema, mas todas elas deveriam cumprir dois critérios básicos: a plausibi­lidade biológica e a evidência científica. Dizer “comigo resulta” para justificar uma recomendação nutricional não é compa­ginável com uma prática clínica respon­sável e séria, até porque a ciência não se importa com o que nós acreditamos, e o pior cientista é aquele que quer provar que está certo.

 

Este artigo fez parte da 5ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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