Tratamento e Prevenção da Pubalgia Crónica | Por Pedro Alves (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

A dor na região da virilha e da púbis é bastante comum em atletas de alta competição e representa uma das principais causas para a interrupção prolongada de atividade física. É comum nas modalidades que exijam mudanças bruscas de direção, movimento de pontapear, acelerações e desacelerações repentinas. É recorrente nos desportos como o atletismo, mas está sobretudo presente no mundo do futebol.

Os sintomas são de difícil avaliação e, em muitas situações, associados a outras patologias como lesão osteoarticular co¬xofemoral, conflito femoroacetabular, hérnia inguinal e lesões musculo-tendinosas na região adutora. Sendo uma patologia de carácter crónico, a pubalgia é assim definida como uma dor na região inguino-púbica, normalmente unilateral, com possível irradiação para a parte medial da coxa até ao joelho e também para a região púbica.

 

Entender as possíveis causas para Pubalgia
A pubalgia é interpretada tanto pelo atleta como pelo fisioterapeuta como uma lesão “monstra” pelo seu difícil diagnóstico tal como pelo tempo necessário para o tratamento conservador (média de 9 meses). Não existe um consenso concreto na literatura sobre como a pubalgia realmente se inicia e quais são os fatores principais que predispõem a lesão, no entanto, dentro dos fatores intrínsecos destacam-se: alterações biomecânicas da pélvis; alterações na musculatura adutora; alterações na musculatura isquiotibial e alterações coxofemorais.

De um forma isolada ou combinada todos estes fatores desencadeiam desequilíbrios musculares importantes que a longo prazo provocam processos inflamatórios músculo-tendinosos e alterações biomecânicas articulares, muito observadas em atletas, tais como alteração no posicionamento articular da púbis (osteíte púbica), alteração do complexo lombo-pélvico (ex. horizontalização do sacro), encurtamento da cadeia posterior (musculatura isquiotibial), lesões músculo-tendinosas na musculatura adutora (ex. tendinopatias), estrutura muscular esta¬bilizadora enfraquecida (musculatura abdominal) e alterações na articulação coxofemoral (conflito femoroacetabular do tipo viking com compressão e encurtamento das cadeias musculares antero-internas da anca).

Tratamento e Prevenção da Pubalgia Crónica | Por Pedro Alves (Bwizer Magazine)

Tratamento conservador para Pubalgia

Nós, fisioterapeutas, apresentamo-nos como peças fundamen¬tais para recuperação das alterações na pubalgia, sendo que 95% dos casos são de sucesso, sem necessidade de intervenção cirúrgica. De um modo comum e transversal, os atletas sobretudo os futebolistas apresentam na sua sintomatologia encurtamentos musculares importantes (cadeia posterior e musculatura adutora), desequilíbrios de força (musculatura abdominal vs. musculatura adutora) e alterações posturais (ins¬tabilidade no complexo lombo-pélvico). Assim, o processo de reabilitação conservadora centra-se em 4 objetivos fulcrais.

1º objetivo: “estabilidade muscular” - procurar no atleta a maior ponte de equilíbrio entre a musculatura encurtada (melhorar a amplitude elástica através de flexibilidade) com reforço muscular das estruturas musculares estabilizadoras (estrutura abdominal).

2º objetivo: “melhorar a flexibilidade” de toda a musculatura com relação direta com a púbis ex. cadeia antero-interna da anca.

3º objetivo: “fortalecimento muscular” das estruturas que permitem estabilização central (core) como as estruturas abdominais, musculatura extensora da anca, musculatura profunda e musculatura estabilizadora paravertebral.

4º objetivo: “trabalho funcional global” com exercícios plio¬métricos ajustados à prática desportiva e específicos às funções que desempenha dentro de campo, com objetivo diminuir os desequilíbrios musculares.

Dentro dos 4 objetivos fulcrais o raciocínio centra-se em reeducar as estruturas musculares em desequilíbrio, sendo que trabalho de reeducação postural global é essencial para dinamizar o maior número de estruturas afetadas.

O trabalho postural da cadeia póstero-interna, permite melhorar o controlo neuromotor dos adutores que pode ser complementado com trabalho de reforço específico abdominal. O trabalho postural da cadeia posterior é essencial para melhorar o encurtamento comum da cadeia posterior (que segundo Busquet é a principal causa para a pubalgia). O trabalho postural associado a fortalecimento das estruturas extensoras da anca permite assegurar a estabilidade muscular necessária para garantir potência e capacidade na corrida (acelerações vs. desa-celerações).

Importante também para o sucesso da recuperação o trabalho de reeducação de gestos específicos que o atleta executa dentro de campo como correr, mas sobretudo melhorar e ajustar a técnica de remate (no caso dos futebolistas).

 

Prevenção para a Pubalgia

Apresentando-se esta patologia com um processo de recupe¬ração lento e variadas estruturas afetadas, torna-se essencial desenvolver com os atletas um trabalho individual e coletivo com foco na prevenção de lesão e ajustado às tarefas especificas que executa. Como diz o provérbio “mais vale prevenir que remediar” e no mundo desportivo a profilaxia deve ser o foco fundamental para qualquer fisioterapeuta.

No que respeita à prevenção de pubalgia relacionada com o futebol existem 6 objetivos fundamentais a serem aplicados aos atletas longitudinalmente dentro do macrociclo da época desportiva.

1º objetivo: treino de flexibilidade. Desenvolver e aplicar um trabalho constante de flexibilidade aos grupos musculares envolvidos diretamente e indiretamente com a púbis.

2º objetivo: Reeducação constante das cadeias musculares. Promover e manter um trabalho de reforço muscular específico das estruturas hipo-ativas para sustentação dos fenómenos de instabilidade articular.

3º objetivo: Mobilidade articular geral. Promover exercícios de mobilidade articular com diversos estímulos para ganho de amplitude de movimento, sobretudo para os membros inferiores.

4º objetivo: Treino de coordenação e lateralidade. Promover exercícios bilaterais que possibilitem diminuir os constantes apoios unipodais e solicitação homolateral. Exercícios de coordenação com estímulos proprioceptivos lombo-pélvicos de forma a melhorar a estabilidade pélvica.

5º objetivo: Proporcionar condições extrínsecas adequadas ao exercício físico. Procurar o melhor calçado e campo de treino adequado para os atletas. Discutir e planear com a equipa técnica volumes, intensidades e ritmos de treino ajustados aos atletas e às fases competitivas.

6º objetivo: alertar para o cuidado do estado geral de saúde (ex. infeções bucais, alterações nutricionais).

Como fisioterapeutas, a nossa missão no desporto não deve ser condicionada apenas e só a tratar e reabilitar, mas ser focada em desenvolver em equipa planos de ação com tarefas e exercícios (mobilidade, flexibilidade, fortalecimento, coordenação, proprioceptividade, pliometria, etc.) que permitam prevenir a patologia e potenciar a performance geral do atleta.

 

Este artigo fez parte da 4ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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