Utilizar uma cinta abdominal na gravidez e pós-parto: a varinha mágica… ou mito? | por Maria João Alvito (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 1ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Muitos de nós já fomos interrogados com esta questão durante a nossa prática clínica, ou simplesmente em conversas de amigos “grávidos”.

Nos encontros de pais, de preparação do nascimento, vulgarmente conhecidos por preparação do parto, várias mulheres questionam a necessidade de utilização da cinta abdominal durante os 9 meses e no período pós-parto.

No período pré-natal, quando optamos por comprar alguma peça do vestuário extra, é com certeza com a utilidade que a mesma possa ir de encontro com as fantasias de vestir roupa pré mamã! Na verdade, o mito de que é obrigatório a utilização de cinta abdominal e que esta é uma peça imprescindível do enxoval da Mãe é o mesmo que dizer que todos os bebés precisam de chucha!

Para tomar uma decisão é necessário sabermos observar o corpo, compreender as mudanças fisiológicas e avaliar as diferentes estratégias de resolução/suporte com a Mulher grávida.

O Fisioterapeuta é, sem dúvida, um dos profissionais de saúde que pode ajudar o casal a compreender esta dinâmica postura/ equilíbrio de forma a atingir conforto com segurança fisiológica.

Ao longo da gravidez o corpo da mulher sofre alterações hormonais através de progesterona, estrogénios e relaxina que proporcionam uma maior laxidão músculo-articular.

Utilizar uma cinta abdominal na gravidez e pós-parto: a varinha mágica… ou mito? | por Maria João Alvito (Bwizer Magazine)

A parede abdominal modifica-se progressivamente, tal como a malha de um pulôver, a par do crescimento do útero e do bebé. Por curiosidade o tamanho do útero passa de 50g (tamanho correspondente a metade de um hambúrguer) para cerca de 1kg no final da gravidez. A cintura pélvica adapta-se com uma báscula predominantemente anterior, a região lombar acentua a sua lordose, assim como as restantes curvaturas fisiológicas da coluna sofrem uma resposta adaptativa de forma a redistribuir o peso/postura que a grávida vai adquirindo. Inferiormente, o pavimento pélvico acompanha estas mudanças, suportando o peso adicional do bebé e do útero; e superiormente, encontramos um diafragma encurtado na sua excursão abdominal.

Algumas situações e contextos particulares agravam este equilíbrio corporal: o crescimento repentino da barriga/ crescimento uterino (geralmente entre o 4º e 6º mês de gestação e na segunda parte do 3º trimestre quando o útero volta a mover-se descendo na cavidade abdominal), posturas laborais sedentárias ou posturas de demasiada descarga vertical (profissões de pé comerciais ou de constante deslocação em transportes com vibração) associados a uma rotina familiar (como o cuidar de outro filho mais pequeno) fisicamente exigente.

Face a estas mudanças que, por vezes, trazem o aparecimento de queixas na coluna, o mais rápido é comprar uma cinta no virar da esquina! Um engano tipo ”fast fit” onde estaremos a “adormecer” toda a consciência postural dinâmica e promoveremos falsos suportes, feitos de 100% licra e algodão!

A mulher vem “equipada de série” para poder usar a sua cinta natural, só precisa de uma pequena ajuda do profissional de saúde: Fisioterapeutas com competências e formação continuada na área da saúde materno-infantil.

O melhor é, sem dúvida, prevenir os desequilíbrios posturais e utilizar estratégias de resolução que proporcionem conforto, alívio das raquialgias (especialmente lombares e sacro ilíacas) e do peso desagradável no baixo ventre. As grávidas podem respeitar o corpo e mimá-lo com pequenos cuidados sob a orientação de um Fisioterapeuta.

Através de estratégias simples e práticas podemos integrar na vida das grávidas:

  • atividade física / exercício físico de estabilidade profunda do core e mobilidade da cintura pélvica e escapular. Se possível, com regularidade ou inseridos na rotina de cada mulher.
  • reeducação postural ativa, com posturas de estiramento e reeducação respiratória associadas
  • exercícios diários perineais integrados na rotina do dia a dia
  • cuidados posturais associados às atividades laborais exigentes
  • processo de avaliação individual, com estratégias de tratamento específicos para cada Mulher grávida.

Após o parto, a sensação de vazio e de flacidez da parede abdominal é sentida pela maioria das mães. A barriga inicialmente fica com um tamanho semelhante aos 4 meses de gravidez. Muitas mulheres, por uma razão estética, ou mesmo julgando estar a fazer o melhor, utilizam uma cinta pós-parto para se sentirem confortáveis e entrarem nos jeans com o mesmo número de antes de engravidarem!

Atenção que esta “varinha mágica” muito tentadora NÃO é uma solução consistente ou saudável para atingir os objetivos no pós-parto: restabelecer a estabilidade profunda e fortalecimento do core, proporcionar a involução visceral uterina (retoma do útero à sua posição pélvica anterior à gravidez), fortalecer os músculos perineais que podem ter sido sujeitos a uma episiotomia-episiorrafia e alongar um diafragma encurtado.

A gravidez é uma “viagem de 9 meses” com constantes mudanças, que necessitam de Fisioterapeutas com formação específica e análise crítica: com uma “mala de viagem” para poderem avaliar, escutar e, conjuntamente com cada família, fazer a diferença nos cuidados de saúde e bem-estar materno-infantil.

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