Anterioridades Torácicas e Dor Cervical | por João Tedim (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte da 1ª edição da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

Acredito que cada vez mais, os fisioterapeutas estão conscientes da importância de não intervir exclusivamente sobre o sintoma do paciente, contudo considero que é importante abordar aquela que penso ser uma das maiores causas de cervicalgia e que observo diariamente na minha prática clinica: as anterioridades torácicas.

Os casos de cervicalgia representam um fardo pessoal e socioeconómico considerável, sendo uma das cinco principais causas de dor crónica. (Cohen e Hooten, 2017)

A dor cervical não-específica afeta cerca de dois terços da população em alguma fase da sua vida e cerca de um terço recidiva após um ano do início dos sintomas. A dor cervical aguda reverte por norma ao final de dias ou semanas, contudo cerca de 10% torna-se crónica. Após uma lesão em whiplash, cerca de 40% dos casos refere ter dor cervical 15 anos após a data do acidente. (Binder, 2007, Binder 2008 e Cohen e Hooten, 2017)

Penso ser importante começarmos esta reflexão com duas perguntas:

1. Partindo do pressuposto de que alterações cervicais de desgaste precoce como cervicartrose, protusão ou hérnia discal ocorrem por uma hipersolicitação ou excesso de uso dessa estrutura (a menos que haja um antecedente traumático que o justifique), não poderá ser uma rigidez ou hipomobilidade a nível torácico superior, a causa desse desgaste?

2. E quantas dessas alterações já observaram na região torácica da coluna vertebral?

Anterioridades Torácicas e Dor Cervical | por João Tedim (Bwizer Magazine)
Anterioridades Torácicas e Dor Cervical | por João Tedim (Bwizer Magazine)

Efetivamente, devido às suas funções de proteção e pela presença da grade costal, a coluna dorsal é uma região tendencialmente com menos mobilidade. De qualquer forma, os primeiros segmentos torácicos têm um papel fundamental nos movimentos das vértebras cervicais, principalmente nos finais das amplitudes. (Kaya e Celenay, 2017).

Assim, uma perda de mobilidade dessa região, vai gerar um esforço excessivo aos segmentos cervicais de forma a compensar essa alteração, provocando uma maior tensão sobre os elementos articulares, musculatura superficial e profunda e fáscias cervicais. Por ser um achado clínico que verifico num grande número de pacientes com estes sintomas, considero ser um elemento chave numa resolução mais definitiva e duradoura nos pacientes com dor cervical. (Kaya e Celenay, 2017, 2007, Binder, 2008, Ricard, 2008, Cohen e Hooten, 2017, Kaya e Celenay, 2017):

  • Tensão anterior com origem nas fáscias torácicas profundas, pleuras, pericárdio, ligamentos vertebro-pericárdicos
  • Posturas inadequadas ou erradas, ou ainda decorrentes do exercício (bailarinas, ginastas...)
  • Por ser uma zona somato-emocional
  • Tensão meníngea (dura máter)
  • Whiplash com impacto posterior
  • Predisposição genética para essa postura Relação das anterioridades torácicas com a dor cervical: (Kaya e Celenay, 2017)
  • O apagamento da cifose dorsal provoca uma alteração do eixo biomecânico das articulações entre as vértebras cervicais
  • Os finais de movimento cervical são dependentes e da responsabilidade das vértebras torácicas altas, sendo que uma hipomobilidade torácica gera uma hipermobilidade compensatória na coluna cervical
  • Esta compensação provoca uma tensão muscular e fascial aumentada, e ainda um stress mecânico e consequente desgaste precoce sobre os elementos articulares, que gera dor de origem miofascial e/ou articular (ligamentos, cápsula articular, disco intervertebral)

Nestes casos considero ser importante reajustar as metas e objetivos do tratamento, tal como:

  • Normalizar a mobilidade das vértebras torácicas altas
  • Promover a normalização da cifose dorsal alta
  • Diminuir os espasmos musculares torácicos e cervicais
  • Diminuir as tensões fasciais torácicas e cervicais
  • Reeducar funcionalmente a relação entre os segmentos torácicos e cervicais

Para atingir essas metas, é fundamental a aplicação de técnicas de tratamento para:

  • Aumento da mobilidade articular nos segmentos que apresentarem restrição da mobilidade (técnicas de manipulação articular, técnicas de mobilização passiva e acessória, técnicas combinadas)
  • Normalizar os elementos musculares (técnicas de alongamento, de inibição, de energia muscular, de pontos gatilho, etc.)
  • Normalizar as tensões fasciais (técnicas indução miofascial, manipulação da fáscia, etc.)
  • Reeducação funcional (treino proprioceptivo, funcional, reforço muscular, etc.)

A variabilidade das técnicas que se podem aplicar é imensa, as alternativas são variadas e todas as abordagens serão adequadas se tiverem como propósito atingirem as metas de tratamento definidas por um diagnóstico preciso e um raciocínio clínico correto.

 

Caso clínico:

Para dar um exemplo do que foi abordado, descrevo o caso de um paciente que recorreu ao tratamento por dor cervical intensa, limitativa nas suas AVD’s, sobretudo no final do dia. O paciente apresentava sobretudo limitação da flexão cervical acompanhada de dor.

Os sintomas existiam há cerca de um ano, mas a dor tornou-se mais incapacitante após acidente de viação, com impacto posterior.

Na avaliação, o paciente apresentava dor à palpação na musculatura cervical, rigidez na região torácica superior, retificação da cifose torácica alta e anterioridade bilateral dos níveis de T1 a T6.

Neste paciente, após o aumento da mobilidade dos níveis de T1 a T6, e promovendo o aumento da curvatura cifótica dessa região, juntamente com a aplicação de técnicas de relaxamento da musculatura torácica e cervical, verificou- se uma melhoria da mobilidade cervical e diminuição da sensação de dor.

 

Conclusão

Não pretendo transmitir que esta é a causa única para a dor cervical, uma vez que a etiologia é frequentemente multifatorial. De qualquer modo, é uma situação que observo diariamente e que considero ser uma das causas mais frequentes e que verifico ser fundamental no tratamento dos pacientes com estes sintomas.

Dentro do conceito de globalidade na avaliação do paciente, este é apenas um exemplo que é muito frequente e que espero que venha a contribuir para um melhor sucesso na abordagem dos fisioterapeutas no tratamento não só das cervicalgias, mas das várias situações que nos surgem diariamente. Serve também como um apelo para olharmos para o nosso paciente como um todo, como um ser global e não um sintoma.

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