Chão Artificial: intervenção em Pediatria

“The limits of the possible can only be defined by going beyond them into the possible.”
ARTHUR C. CLARKE

Como fisioterapeuta, no mundo da pediatria, tento transmitir aos pais para pensarem além das limitações, não quero com isto dizer que as limitações não sejam reais. Independentemente de tudo, há sempre capacidades que estão além da criança individual, quer esta tenha necessidades especiais ou não. Aos quatro meses de idade, não encaixamos um par de patins nos pés de uma criança e lhe pedimos para patinar. Há limitações óbvias envolvidas com o nascimento de um ser humano.

O processo de crescimento e aprendizagem é bastante desafiador para uma criança sem necessidades especiais. Essa demanda é aumentada exponencialmente, numa criança com necessidades especiais. Então, por que eu digo ir com tudo e pensar além das limitações?

É um lembrete de que os limites estão em constante mudança, as inovações cientificas, o modo de visão social, o que diz respeito às pessoas com necessidades especiais, e novas descobertas por pessoas que dedicam a vida a enfrentar os desafios de nossos companheiros humanos que nascem com algumas desvantagens. Os limites externos para pessoas com necessidades especiais estão a ser ultrapassados de forma constatada. E cada vez mais, fazemos parte de um mundo, onde há novos exemplos e novos heróis que nos orientam o caminho não só em como viver com necessidades especiais, mas prosperando com eles e vivendo vidas gratificantes, e até extraordinárias, independentemente das necessidades especiais que as tornam diferentes.

“Out only limitations is our belief that i tis so.”
MOSHE FELNDENKRAIS, PhD

Não há momento algum enquanto interagimos com outro ser-humano, em que aquilo que fazemos não tenha impacto a nível cerebral. (1)

O cérebro pode mudar “positiva ou negativamente”. Ao falar em plasticidade, ou mudanças, geralmente, tomamo-las, por positivas, no entanto, é importante não esquecer que o cérebro não julga, simplesmente responde às experiencias e condições externas e internas.

 

Ultrapassar o paradigma do “curar”:

Se uma pessoa pretende ajudar uma criança, incapaz de gatinhar, pode parecer-lhe perfeitamente logico, levar a criança para o chão, coloca-la na posição de 4 apoios, suporta-la para que mantenha a posição, e, posteriormente, tenta assisti-la na realização dos movimentos que constituem o gatinhar. Até certo ponto, a tarefa pode ser bem-sucedida, mas, com a frequência, isso não funciona, ou pelo menos da melhor forma. Por que não funciona? Simplificando, se nos concentrar-mos unicamente no resultado final da tarefa que queremos que a criança alcance, roubamos as oportunidades para que esta tenha a miríade de experiências aleatórias que seu cérebro precisa para formar os padrões internos, de forma a realização adequada de atividades; isto com base naquilo que são experiências que a criança saudável obtém. A riqueza de experiências que a criança então reúne, como uma verdadeira galáxia de conhecimento, fornece o cérebro com o que este precisa, não só descobrir e realizar certas ações, mas também aperfeiçoá-las e melhorar, no fundo, para se tornar um aprendiz exímio. (1)

O que sabemos através ciência, no processo de neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro para se reorganizar através da formação de novas conexões neurais, é que o cérebro usa cada bit de informação que possui de inúmeras maneiras, surpreendentes e imprevisíveis no seu engenho. Nessa galáxia subjacente de conhecimento, os bilhões de conexões e padrões que o cérebro cria, tornar-se-ão a fonte de informações para potenciar capacidades e aperfeiçoar habilidades futuras. A experiência de rastejar, balbuciar, ouvir música, apanhar uma bola, ou até mesmo, reconhecer a diferença entre calor e frio, estará associado a tudo o que fazemos, quer seja física, emocional ou intelectualmente. Pode ser útil, relativamente a isto, considerar tudo o que pensamos, fazemos e sentimos, como movimentos organizados pelo cérebro.(2)

A eficácia de qualquer ajuda que possamos oferecer depende da forma como somos bem-sucedidos em ajudar o próprio cérebro da criança a criar suas próprias e únicas, soluções. (3)

 

“We are in early stages of a brain plasticity revolution.”
MICHAEL MERZENICH, PhD

Movimentos aleatórios alimentam o cérebro:

Após o nascimento, a criança inicia a descoberta que é um ser separado no mundo, um indivíduo com um corpo, sentimentos, desejos e necessidades; é inundada de sensações de todos os seus sentidos, de vários processos que se passam internamente e dos seus próprios movimentos e interações com seu ambiente externo. É aí, que a criação de uma ordem dentro de um caos aparece, transformando movimentos e sensações principalmente aleatórios em ações que são propositadas, intencionais, reconhecíveis e significativas para a criança. (4)

A capacidade da criança de percecionar diferenças no que vê, ouve, prova, cheira e sente no seu corpo em movimento, é o coração da capacidade cerebral, na criação de novas neuro-conexões e caminhos.
Sem exceção, o cérebro de uma criança com necessidades especiais, exigirá ajuda para perceciona diferenças, pelo menos nas áreas relacionadas às suas limitações presentes.
Diferença que não seja percecionada, é não existente.(5)

O nosso trabalho é ajudar a despertar o cérebro da criança e, apoiar este processo de criação, formação e descoberta.

 

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Bibliografia

1. Begley S. 2007. Train your mind, change your brain: how a new science reeals our extraordinary potential to transform ourselves. New York: Ballantine Books

2. Thompson E, Varela FJ. 2001. Radical embodiment: Neural Dynamics and consciousness. Trends in Cogniive Sciences 5: 418-25. Lewis MD, Toddd RM. 2005. Getting emotional _ A neural perspective in emotion, intention and consciousness. Journal of Consciousness Studies 12(8-10): 213-38;

3. Coq J-o, Byl N, Merzenich MM. 2004. Effects of sensoriomotor restriction and anoxia o gait and motor córtex organization: Implications for a rodent modelo f cerebral palsy. Neuroscience 129 (1): 141-56;

4. Murphy BK, Miller KD. , 2009. Balanced amplification. A new mechanism of selective amplification of neural activities patterns. Neuron 61:635-48. Lewis MD. 2005, Self-organizing individual diferences in brain development. Development Review 2511:252-77

5. Rochat P, Hepsos SJ. 1997. Differential rooting response by neonates: Evidence for na early sense of self. Early development and Parenting 6(2): 150.1.8. Rochat P. 2003. Five levels of self-awareness as they unfold early in life. Consciousness and Cognition: 12:717-31

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