Tendon Neuroplastic Training: uma visão diferente sobre o tendão | Por Ricardo Vidal (Bwizer Magazine)

Este artigo fez parte do Número 8 da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

 

As tendinopatias do membro inferior são lesões que derivam de episódios traumáticos de repetição, causados por forças de tensão que a musculatura exerce sobre o tendão. As tendinopatias mais frequentes são aquelas que afetam os tendões aquiliano e rotuliano, exatamente por estes estarem acoplados a grupos musculares com grande capacidade de produção de força máxima, força essa que se transforma em fenómenos de carga/ tensão para o tendão, provocando-lhe lesões ao nível estrutural.

O conceito de tendon neuroplastic training (TNT) vem alterar o paradigma da reabilitação das tendinopatias, por ser um conceito baseado no exercício terapêutico, onde o foco do tratamento deixa de ser o tendão de uma forma direta. O TNT aborda essencialmente as estruturas musculares associadas ao tendão segundo uma lógica global e de progressão na reabilitação. Inicialmente, as contrações isométricas funcionam como analgésico para o tendão. Num segundo momento, as contrações isotónicas em velocidade de execução baixa (heavy slow resistance training- HSRT) promovem adaptações no sistema nervoso central com o objetivo de “treinar” o tendão a absorver cargas elevadas, diminuindo-lhe o impacto dos movimentos rápidos e explosivos, mas mantendo o estímulo da carga, faltando concluir o processo de retorno à atividade desportiva com o respetivo momento de readaptação à modalidade.


Fatores de Risco

Como todas a lesões não traumáticas, as tendinopatias são multifatoriais, sendo impossível atribuir a um fator de risco isolado a responsabilidade pelo aparecimento da lesão. Contudo, os fatores relacionados com a metodologia de treino, exercício desadequado e modalidades desportivas que impliquem uma exposição excessiva a movimentos pliométricos, parecem ser fatores que devemos dar mais atenção na perspetiva da prevenção.

A “balança” dos fatores de risco mostra que não existe evidência que uns fatores tenham preponderância em relação a outros, ou seja, o conjunto dos fatores é que potencia o aparecimento da lesão. No entanto, analisando o tendão no âmbito da biomecânica, e sendo a nossa intervenção baseada no exercício, percebemos que os fatores mencionados anteriormente e a sobrecarga em exercícios explosivos com grande velocidade de execução são aspetos a ter em maior consideração na prevenção de tendinopatias do membro inferior.


Analgesia

O exercício excêntrico tem vindo a ser usualmente prescrito para o tratamento das tendinopatias, contudo sempre se revelou ser uma opção desconfortável e dolorosa, fazendo com que os pacientes/ atletas por vezes não o conseguissem suportar. Por acarretar um previsto aumento da sintomatologia, o exercício excêntrico, durante uma época competitiva, não se adivinha ser uma boa solução para um atleta, isto porque causa uma óbvia limitação funcional, inibição muscular e um tempo de paragem mais longo.

No entanto, o exercício adequado parece estar a tornar-se o principal analgésico para os quadros de tendinopatias. Com efeito, na reabilitação funcional de qualquer lesão, salvaguardando escassas exceções, parece claro que as abordagens/ estratégias que induzam dor não são as mais viáveis no que diz respeito à evolução de uma lesão e do seu consequente quadro álgico. Posto isto, as contrações isométricas surgem como o exercício ideal para a redução da sintomatologia numa fase aguda da lesão.

As últimas evidências mostram ótimos resultados na analgesia imediatamente e após 45 minutos da contração isométrica para as tendinopatias do rotuliano, e quando comparado com as contrações isotónicas os resultados parecem ser superiores.

Perspetivando a reabilitação numa lógica progressiva, primeiramente abordamos a dor através das contrações isométricas e, quando obtivermos um controlo sobre os sintomas álgicos e amplitudes não dolorosas, avançamos para um trabalho de força mais intenso, introduzindo todas as variáveis necessárias à evolução física do atleta. No que diz respeito ao “protocolo de analgesia” a sugestão é avançar com 5 repetições de 45 segundos, progredindo até 70%RM, tendo em conta que deverá ser realizado sem dor.


Heavy Slow Resistance Training

Na última década, a reabilitação baseada no exercício excêntrico parecia ser a opção mais consensual para a abordagem conservadora das tendinopatias. Contudo, o exercício excêntrico quando usado isoladamente está a cair em desuso por falta de evidência convincente da sua eficácia e por, normalmente, ser uma opção agressiva para os atletas, que habitualmente relatam aumento da sintomatologia após a sua execução. A mais recente evidência vem agora introduzir o exercício isotónico, com foco na contração concêntrica, como uma opção válida e com bons resultados naquilo que é a evolução deste tipo de lesões, com o grande objetivo de “readaptar” o tendão à absorção de cargas de uma forma progressiva. Deste modo, surgiu o conceito heavy slow resistance training (HSRT) que consiste em executar exercícios isotónicos em velocidades de execução baixas e com cargas altas. O HSRT emerge com o objetivo de acrescentar ao exercício isotónico das tendinopatias a componente do controlo motor – um aspeto importante na relação do tendão com o sistema nervoso central, ou seja, desta forma potenciamos a aprendizagem motora criando adaptações neurais: neuroplasticidade.

A neuroplasticidade explica-nos que através do exercício podemos, efetivamente, criar adaptações positivas, melhorar os aspetos da aprendizagem motora e, por consequência, melhorar a saúde estrutural do tendão.

O exercício isotónico através do HSRT deverá contemplar uma escolha adequada de exercícios para fazer face às necessidades e características das tendinopatias aquiliana e rotuliana. Na tendinopatia do rotuliano o foco da abordagem, por razões óbvias, deverá ser o quadricípite, mais propriamente o reto femoral - por isso, exercícios como leg extension, leg press, hack squats, back squats (bilaterais), step ups e split squats (unilaterais) devem ser tidos em conta. Por sua vez, a tendinopatia do aquiles deverá ser modulada através do tricípite sural e, por isso, exercícios que comtemplem heel raises (na leg press, com barra, sentado...) parecem ser os mais adequados. No entanto, a globalidade do tratamento não deve ser descurada e torna-se necessário avaliar estruturas a montante e/ou a jusante do tendão que possam ter influência no quadro álgico das tendinopatias.

O quadro seguinte apresenta uma proposta de reabilitação através do raciocínio TNT:

 

 

 

As tendinopatias do membro inferior devem ser tratadas através do movimento, e é cada vez mais evidente que a aplicação de técnicas passivas e invasivas de forma isolada, não leva vantagem sobre o exercício adequado.

O analfabetismo motor associado à inadequada metodologia de treino são fatores importantes para a prevenção deste tipo de lesões. O controlo motor associado ao gesto técnico deve ser trabalhado para estimular a neuroplasticidade. A metodologia de treino requer uma adequada gestão do treino dos atletas e o risco de lesão pode ser controlado através do tempo de exposição ao risco, da gestão da dosagem dos movimentos potencialmente lesivos, do trabalho de força com carga e posturas adequadas, e do ensino de movimentos, tais como, landing, desacelerar, técnica de corrida, saltos, entre outros.

 

 

esquema

 

 

Este artigo fez parte do Número 8 da Bwizer Magazine – pode vê-la na íntegra aqui.

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